Nódoas negras, cabelos encharcados, muitos sorrisos. Este festival, cheio de diversidade é um verdadeiro hino à amizade.
Os Máquina descrevem a sua música como : “Juntar sons para fazer barulho e juntar barulho para fazer sons”. Hoje, parei para pensar como seria acordar e aperceber-me que havia perdido a audição. Não ouvir mais a voz dos meus pais, o riso de amigos, os sinos da igreja quando é meio-dia. Esta possibilidade angustia-me. A ideia de o barulho que se transforma em som, que se transforma em música, desaparecer do meu quotidiano, faz explodir o meu coração de agonia. Nos dias 26 e 27 de setembro, celebrei não só os meus tímpanos saudáveis, como também o carinho ao observar o prazer e a felicidade que cada artista trouxe consigo para o palco. No Festival Cuca Monga, a música foi apenas um pretexto para darmos valor à amizade, para reconhecermos a importância de todo o amor expresso em quem canta e em quem assiste.
Dia 01
A inaugurar o palco principal, esteve a oureense Bia Maria. Enquanto o sol se punha, a sua voz doce e sem pretensiosismo foi um divertido ponto de partida para a terceira edição deste festival. Passeando por entre os caminhos da bossa nova, do pop e da música tradicional portuguesa, o tema do empoderamento feminino é permanente. “A canção Marcha da Paridade é para todas as mulheres falarem mais alto, mas também é importante que os homens se juntem à luta”, disse a artista, no final do concerto. Afinal, “Qualquer um pode cantar”.
De seguida, no Palco do Bosque, recebi a boa surpresa da lufada de ar fresco da música de F.C. Éme e Moxila. “Houve uma coisa simplesmente bela, / E que, sem ter história nem grandezas, / Em todo o caso dava uma aguarela.” escreveu o poeta Cesário Verde. A tal coisa bela é, definitivamente, a dinâmica aveludada de João Marcelo e Mariana Pita, presente nas suas canções folk-pop que descrevem o dia-a-dia na cidade. É fresco, é descomplicado, é belo.
Descobri Luís Severo no quarto de uma amiga. Na casa da Marta, comi guiozas sentada no chão, observei vizinhos, escondida atrás da cortina, vi filmes de terror e ri-me, ri-me mesmo muito. Tudo isto ao som do cantautor lisboeta. Luís Severo tem uma sensibilidade muito própria, o que foi evidente na sua atuação. Um concerto intimista, suave, caloroso, delicado. Faixas como “Joãozinho”, “Cedo ou Tarde” ou ainda “Primavera” fizeram-me voltar ao quarto da Marta. Ouvir Luís Severo é sonhar, acordar e desejar voltar ao sonho.
Expresso Transatlântico foi o momento culminante da noite. A sua mensagem é simples: “Dançar, empurrar para a frente, mexer os pés, gritar, sorrir, chorar e, no fim, repetir”. E foi exatamente isso que todos nós fizemos. A banda mistura a música tradicional portuguesa com influências globais como, predominantemente, ritmos brasileiros e africanos. No fundo, tentam captar a essência de se viver numa Lisboa multicultural.
O nome que se seguiu embalou-me numa viagem primaveril. Jasmim trouxe consigo conforto, atmosfera, doçura. Num dos intervalos entre as suas melodias que agradecem às coisas bonitas da vida, Martim Braz Teixeira afirmou o quão especial é sermos todos diferentes, mas estarmos, naqueles 45 minutos, todos juntos. Música é união!
A suavidade de Jasmim deixou-me ansiosa por chegar a casa, colocar o pijama e dormir. Contudo, antes disso, o Conjunto Cuca Monga fechou animadamente a minha noite. Reunidos vinte artistas da editora numa só banda em cima do palco (contando com nomes como Rapaz Ego, Capitão Fausto, Luís Severo, Ganso, etc) foi caótico, mas, sobretudo, um hino à amizade. “Tou na Moda”, a canção mais saltitante e colorida do Conjunto Cuca Monga, apagou da minha memória o desejo de conforto e obrigou o meu corpo a dançar de um lado para o outro. Valeu a pena.
Já no conforto dos lençóis, senti os maxilares doridos. O espírito de amizade era tão palpável que, durante toda a noite, dificilmente parei de sorrir. Ao ter este pensamento, com um sorriso no rosto, adormeci.
Dia 02
O céu estava nublado. Ora deitava umas pingas de chuva tímidas, ora molhava-nos vigorosamente. Havia os prevenidos, os com guarda-chuva e impermeável, e os descuidados (infelizmente, estou incluída neste grupo), com casacos finos ensopados, cabelos a pingar, sapatos castanhos, outrora enterrados em poças de lama. Nenhum destes fatores impediu ninguém de desfrutar e dançar.
O segundo e último dia deste festival começou com a incomparável Emmy Curl. Alternando entre a guitarra acústica e aparelhos eletrónicos que produzem beats e samplers, encontramos na sua música muita cor, magia, encantamento e, principalmente, um enorme desejo em celebrar a vida.
Na música portuguesa do século XXI, não há ninguém como B Fachada. Apesar de não ter tocado várias das músicas que ansiava escutar, o concerto foi tão apaixonante, que se tornou simplesmente maravilhoso. Quando “Prognósticos” começou, a chuva fez-lhe companhia. Ao ouvir “Hão-de vir mais injustiças e desgraça/ Nunca vai faltar desgosto e abandono”, água escorria pelas minhas bochechas. Talvez fossem lágrimas. Talvez fosse apenas as pingas da tempestade Gabrielle. Nunca chegarei a uma conclusão, só sei que, nesse momento estava demasiada abalada com o talento sobrenatural deste artista.
Viajei de um palco para o outro e Chica aconchegou-nos com as suas melodias meigas, antes da atuação do único artista brasileiro deste festival. Com Zé Ibarra, o tempo passou lentamente. Apesar do seu charme, sentado em palco com a sua guitarra, não sei se foi devido a expectativas demasiado altas, mas desiludiu-me. Considerei as suas canções tão sem graça, que acredito que houve uma altura que prestei mais atenção ao som dos aviões que passavam por cima de nós, do que ao que acontecia propriamente no palco.
Depois do indie pop de Gorjão, a banda lisboeta Ganso entrou em palco. Mais uma imitação barata de Capitão Fausto. Música fácil e pouco original. Lá voltei eu aos aviões no céu, ao olhar de cinco em cinco minutos para o relógio, ao ficar impressionada com todos à minha volta saberem as letras de cor e salteado, sem exceção.
Quando já prestava mais atenção ao cansaço do que à música, Silvino Branca salvou a minha noite. De acordeão nos braços e espírito africano no coração, contagiou todas as almas que o assistiam. Não parei de sorrir. Estava ali, no Palácio Pimenta, mas, ao mesmo tempo, com a minha avó moçambicana. Ela dança, daquela maneira que já nasceu com ela, faz tudo parecer tão fácil. Eu, ao seu lado, tento, desajeitadamente, aprender. Abano o corpo, em vão. Ninguém vence a minha avó no que toca a dança. “Está tudo bem”, oiço-a dizer, “o que interessa é sentires a música”. Quase no fim, o artista cabo-verdiano afirma: “Nós vamos embora, mas vamos com saudades”. Lembro-me, automaticamente, de algo que me disseram quando me fui embora de São Tomé. “Tens de ir com saudades para, assim, um dia voltares”. Talvez a saudade não seja assim tão portuguesa.
De frente para o palco principal, o Palco da Relva, num prédio longínquo, vejo um anúncio do Pingo Doce. Está escrito “A qualidade, quem trouxe?”. Uns mais do que outros, certamente, dependendo dos gostos de cada um. Para mim foram os Máquina. A seguir de Silvino Branca, segundos depois, já estava noutra dimensão. Máquina não nos faz dançar. Não nos faz balançar as ancas de um lado para o outro. Máquina coloca um vírus dentro de nós. Para o deixarmos sair, temos de ser quase violentos. Deixar o cabelo suado chicotear a cara, sacudir o tronco para a frente e para trás, saltar o máximo que os nossos joelhos permitirem, sentir e provocar carga de ombros. No dia seguinte, perguntaram-me onde arranjei tantas nódoas negras. Não soube dar resposta. Quando penso em concertos desta banda, só me vêm à cabeça imagens turvas. Não sei ao certo o que eles provocam em mim, não sei ao certo o que acontece quando os oiço, não sei ao certo quem é a pessoa em que me transfiguro. Só sei que é uma bomba de adrenalina que não consigo obter em mais nenhum lado. Como ouvi alguém dizer, findo o concerto, “eu fico bêbado só de lá estar no meio”. Com uma cerveja bebida muitas horas antes, foi exatamente isso que senti. Máquina, tal como o álcool, vicia.
No seu concerto, Zé Ibarra disse “Ainda bem que estou vivo e não morri”. Sorrio. Ainda bem que estou viva para ouvir a voz dos meus pais, o riso de amigos, os sinos da igreja quando é meio-dia. Ainda bem que estou viva para ouvir música. Ainda bem que estou viva para ter a oportunidade de ir ao Festival Cuca Monga.
Fotografias: Felipe Kido


































































Adorei! Escreves de uma forma muito sincera e genuína, és muito hábil a trabalhar as frases e deixas transparecer bem o que os concertos te fazem sentir. Os bons e os maus. Muito bom!