Jordan Rakei e Ezra Collective trouxeram virtuosismo e alma ao Parque Marechal Carmona.
Não poderia haver uma paisagem mais divorciada do cinzento londrino do que o parque Marechal Carmona em Cascais, numa noite em que não uma, mas duas referências do London Jazz lá tocariam. No entanto, dificilmente conseguiríamos imaginar melhor paisagem para ouvir aquele tipo de música.
Jordan Rakei, o londrino de 33 anos que já colaborou com nomes como Disclosure, Bonobo e Alfa Mist apresentou o seu último disco, The Loop, acompanhado por teclados, percussões e coros que foram pintando o pôr-do-sol numa atmosfera etérea e dançante. Esta atmosfera era ajudada pelo espírito colaborativo da música, que permitiu que cada músico exibisse a sua técnica instrumental. Infelizmente, a fórmula não tardou a mostrar-se repetitiva, com solos (muitas vezes únicos, outras vezes em roda à boa maneira do jazz) a culminarem num refrão final, muitas vezes mais lento, de forma a dar algum gravitas à performance.
Merecem menção, no entanto, a teclista, Eliza Oakes, que nos brindou com um solo vocal na coda de uma das músicas, a baixista Flo Moore que conseguiu a proeza de fazer um solo de baixo soar bem e o guitarrista, cujo nome não conseguimos apurar, que surpreendeu com um solo incendiário, carregado de pirotecnia wah-wah hendrixiana que contrastou fortemente com a sua disposição tranquila e subtil no resto do concerto. Apesar da boa disposição e da banda e da atmosfera tranquila que emanou do palco, os arranjos não foram interessantes o suficiente para acalmar a nossa sede pelo concerto que se seguiria.
Os Ezra Collective entraram no palco do Cool Jazz ao som de um repto emitido pelo PA – “Dance is life and you can’t be angry when you’re dancing so keep dancing”. Esta seria a terceira visita do coletivo londrino a Portugal, depois de um concerto no Super Bock Super Rock ao qual foram uma 15 pessoas, segundo nos contou a banda. Houve afrobeat, houve dub, houve jazz mais clássico, tudo tocado com a propulsão de uma banda cujo objetivo era, como reforçou o baterista Femi Koleoso, transformar o hipódromo Manuel Possolo numa gigante pista de dança a céu aberto. A empreitada foi bem sucedida não só pela ferocidade do quinteto, que tocou com uma fome atípica de uma banda que já conta com mais de uma década de existência, mas também pela maneira como encadearam o concerto, em que as músicas se seguiam umas às outras qual DJ set.
Ancorados pela secção rítmica, Ife Ogunjobi, no trompete e James Mollison, no saxofone tenor, alternavam entre erupções rítmicas kemetianas e solos labirínticos que elevavam o êxtase ritualístico sentido pelo público que entoou a melodia de muitas das músicas. Já bem para lá da segunda metade do concerto, a festa na plateia tornou-se tão irresistivel que a seccção de sopros desceu do palco para se juntar ao cada vez menos hermético golden circle (“you’re all in the golden circle now”). Avançando até à regie, Ife Ogunjobi e James Mollison, acompanhados de perto pelo baixista TJ Koleoso, deixaram para trás um rasto de pessoas algures entre a dança e o mosh, alimentando a entrega dos músicos, numa perfeita simbiose que só se manifesta naqueles concertos que são mesmo especiais.
No fim, sem nos termos apercebido exatamente como, olhámos em volta e já não estávamos num concerto de jazz, daqueles que costumam fazer cartazes do Cooljazz. Estávamos mesmo numa gigante pista de dança, na qual grupos desconhecidos misturavam-se e dançavam em roda, indiferentes ao pó que se levantava do chão com o seu movimento, obedecendo apenas à batida hipnótica e incessante vinda do palco. O prometido foi mesmo devido e há que dar crédito aos Ezra Collective pela mestria com que conseguiram conduzir o concerto e pelo ritmo e calor que imprimiram naquela noite fresca.
Texto por Ana Lúcia Tiago e Miguel Moura
Fotografias gentilmente cedidas pela organização










