Concerto enxuto da banda britânica, levando-nos na sua montanha russa sonora cheia de loops, descidas vertiginosas e pausas para recuperar fôlego.
Durante muitos anos, o bardo que vive na aldeia do Asterix chamou-se Assurancetourix. Em 2002, alguém que não tem respeito pelas tradições achou que seria importante modernizar a banda desenhada, decidindo mudar o nome dessa personagem, para a alinhar com a versão inglesa. Apareceu assim um novo bardo (ou será same as it ever was?), disposto a fazer a cabeça em água aos habitantes de uma das aldeias mais famosas do mundo – Cacofonix. Sim, lembrei-me disto enquanto ouvia os caroline a ocupar o palco do B.Leza, pois a palavra que me ocorreu para melhor descrever o que estava a assistir foi cacofonia.
nome feminino
1. som desagradável ou resultante da junção dos sons de duas ou mais palavras próximas; cacófato, cacófaton
2. pronúncia errada de palavras, que produz um som desagradável
3. MÚSICA sons ou vozes que não estão afinados entre si
4. repetição de sons que é desagradável ao ouvido
Agora apresenta-se-me uma tarefa hérculea, que é tentar desmontar este significado impresso em dicionários, e tentar convencer que também há beleza no meio de uma cacofonia. Que também há beleza em música feita sem a habitual estrutura de uma canção verso-refrão. Não foram os caroline que inventaram esta realidade alternativa, mas são, dela, bons representantes.
Mas antes, uma palavra para Adriana João, que abriu a noite com uma instalação sonora de voz e violino, ela que tem criado paisagens que misturam som, imagem, performance para ocasiões específicas.
caroline 2, lançado em maio do ano passado (mês de boa memória), foi muito bem acolhido especificamente pela sua capacidade inventiva. Ter uma sonoridade com laivos de free-jazz, que parece improvisada mas, no fundo no fundo, é detalhada e trabalhada ao milímetro, dispersa entre instrumentos dos oito elementos que constituem a banda, comporta um grande desafio quando apresentada ao vivo. Mas eles vieram, dispuseram-se em semi-círculo no palco, e mostraram-se à altura da tarefa. (veni, vidi, vici, se quisermos continuar a fazer ligação com o universo asterixiano).
O arranque foi tímido, com “Song two”, melancólico, depois intenso, depois esperançoso, saxofone e violinos entrelaçados com guitarra e bateria, a voz de Casper Hughes a surgir como raio de luz no meio da penumbra. Mais para a frente há troca de instrumentos, aparecem flauta, saxofone, baixo, clarinete, voz com autotune, uma verdadeira parafernália, há uma encantadora “Tell Me I Never Knew That” que na versão de disco é cantada por Caroline Polachek. Para além das oito músicas que constituem caroline 2, tocaram também três temas do anterior: “Dark blue”, “Good morning (red)” e “Skydiving onto the library roof”. Mas os grande momentos foram “Coldplay cover”, na qual a banda se divide em dois grupos de quatro, cada um numa ponta do palco, a tocarem diferentes canções que desaguam numa só, e o final com a épica “Total Euphoria”. Nesta mostram como é possível, por milagre ou magia, fazer confluir tantas diferentes forças/instrumentos em beleza (e assim fazer jus ao nome do local que foi o eleito para o seu concerto em Lisboa, o último da tour). Sim, a cacofonia pode ser bela. E os caroline mostraram-nos isso de forma esclarecedora.
Setlist:
Song two
U R UR ONLY ACHING
Dark blue
When I get home
Tell Me I Never Knew That
Beautiful ending
Skydiving onto the library roof
Two riders down
Coldplay cover
Good morning (red)
total euphoria
Fotografias de Francisco Fidalgo






























