A oitava edição do Capote Fest demonstrou, mais uma vez, que este é o festival de eleição para melómanos com pouco medo de rótulos e muita vontade de descoberta!
No final do terceiro festival consecutivo que tenho a sorte de poder acompanhar, o sentimento de alma cheia e de admiração pelo trabalho levado a cabo pela Capote Música continua a crescer.
O par de feiticeiros alentejanos, que escondem o seu manto por debaixo do capote, continuam a fazer magia com poucos recursos materiais e a oferecê-la a quem gosta de descobrir novos – ou menos novos, mas escondidos – talentos musicais do nosso país, independentemente do estilo que praticam. Aliás, a diversidade sónica do cartaz do Capote Fest parece mesmo estar a ficar cada vez mais apurada … cheira-me que os nossos feiticeiros não deverão lavar o caldeirão!
Infelizmente, não me foi possível acompanhar o habitual arranque do festival na sala da Sociedade Harmonia Eborense, na noite da passada quinta-feira. No entanto, tudo indica que os Marquise terão deixado os mesmos bons sinais que pudemos escutar aquando da sua última atuação em Lisboa.
Regressei então diretamente à tão carismática sala da SOIR JAA – Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar – para assistir à atuação das “restantes” dez bandas distribuídas pelas duas noites principais do certame.
Sexta-feira, 10
Apesar de formados apenas há cerca de 2 anos, os Above the Ocean contam já com uma bela falange de apoio, fácil de identificar pelas t-shirts da banda, que aliás pude ver durante todo o fim de semana . O quinteto eborense trouxe ao palco da SOIR o seu dinâmico e musculado Metalcore moderno com algumas tonalidades da casta Slipknot. Para além de se mostrarem surpreendente coesos para uma banda tão recente, destaca-se igualmente o vozeirão – e já agora, a amplitude de registos – de José Saruga. Não é banda para se ouvir quieto, e o público respondeu com o inevitável e merecido headbanging! Depois desta atuação tão bem conseguida, e do fresquíssimo single “Love Song (for the broken)”, ficamos a aguardar os próximos passos dos Above the Ocean.

Após as várias guinadas das guitarras dos eborenses, seguiu-se a primeira guinada no som nas colunas capoteanas – são várias ao longo do festival e isso, reforço, é uma das características que o torna tão mágico.
Os Elan Mess acalmaram o ritmo e reduziram o “stress”, sem, por isso, perder a intensidade e a atenção do público. Salvaguardadas as devidas diferenças, a voz principal continua a ser o alvo principal dos holofotes. Gabriela Silva vai alternando a tranquilidade com a exuberância, tudo sempre muito ajustado às composições, muito pouco messy, do quinteto de Cascais, que parecem ter ido beber a várias fontes e eras do Pop Rock para ganhar corpo e personalidade. O segundo álbum da banda está quase quase aí! Mantenham-se atentos!
E a propósito de discos para vir, desde que os apanhei pela primeira vez, que espero pacientemente pela estreia discográfica dos Mars County, a banda que se seguiu. Diz-se por aí que será ainda este mês, e por isso, a espera será curta. Entretanto, ao vivo, a banda cresceu, Francisco Miranda (baixo e teclas) veio juntar-se a David Vistas (guitarra principal), Ricardo Espiga (bateria) e Rui Gamito (voz e guitarra ritmo) e os Mars County ganharam corpo, energia e presença – das três vezes que os vi, foi sem dúvida, aquela em que estiveram mais soltos.

Para além deste quarteto, é ainda preciso considerar, que para cerca de metade dos temas, a banda lisboeta, conta com a participação de Filipa Lopes (coros e percussão), tornando o seu rock psicadélico carregado de areia dos desertos americanos, mais doce e balanceado.
Os Jacarandá podem até vir igualmente de Lisboa, mas posso apostar que se terão cruzado com os Mars County algures pelo Sul dos Estados Unidos, a caminho do Mississipi. Os Blues parecem estar na base da sua sonoridade, mas esse será apenas o ponto de partida, porque esta é malta que gosta de viajar por outras paisagens, ora mais terrenas e tribais, ora mais aéreas e coloridas. Depois de os ter ouvido no conforto do Com Calma, o quarteto reagiu bem a um palco mais alto, a uma sala maior e a um público de festival que não lhes tirou os olhos de cima e ensaiou várias formas de dança. Para tal, muito terá contribuído a inclusão de um bombo na bateria de Jonathan Barral que em parceria com Ricardo Freitas (baixo), insistem em servir de timoneiros das divagações de Alban Hall (voz, harmónica, flauta, percussões) e da guitarra maravilhosa de Philippe Lenzini. Disse-me uma voz ao ouvido que haverá álbum de estreia este ano. Mais um para a nossa lista de espera!

Dificilmente teria havido melhor forma de fechar a primeira noite do que com o concertão dos Madmess. Ricardo Sampaio (guitarra e voz), Vasco Vasconcelos (baixo) e Luís Moura (bateria) vieram do Porto para nos fazer voar sem precisarmos de aditivos. A forma como a guitarra paira sobre a teia tecida pela secção rítmica é mais do que suficiente. Aliás, é sublime! Heavy psique tendencialmente instrumental (com umas benvindas pinceladas vocais) no seu melhor! Fantástico!
Sábado, 11
A sala da SOIR começou a encher cedo. Vieram fãs de longe (e de perto) para o muito aguardado regresso dos Magna Terra aos palcos. João Cágado (guitarra e voz), Manuel Dias (voz), Nelson Nunes (teclados), Pedro Fava (baixo) e Luís Fava (bateria) estariam tão ou mais excitados que quem veio para os ver e ouvir, e essa excitação desaguou em foco e empenho.
Os Magna Terra conseguem a proeza de juntar tonalidades muito próximas do Rock Progressivo e do AOR oitentista com a tradição da música popular alentejana, sem que soe estranho ou muito menos forçado. Uma bela atuação que deixou quem conhecia com um sorriso de orelha a orelha e, aposto, o coração mais quente e quem não conhecia, com a boca aberta de espanto!

Rafaela Botta (guitarra, voz), Rodolfo Camacho (baixo e voz) e Diogo Mendonça (bateria) formam os Puppet Riot, um verdadeiro Power Trio que saiu do Funchal na sexta-feira de manhã para chegar a Évora poucas horas antes da sua atuação. Atravessaram um bocado do Atlântico e um bocadão de um mar de chatices e revezes (ventos, cancelamentos, companhias áreas e quejandos) para cá chegar e quando chegaram, soltaram um poder ainda maior nas colunas do Capote Fest. Na bagagem traziam aguardente de cana, mas a verdadeira poncha foi servida no palco, uma mistura energética e super bem medida de Rock Alternativo a la noventas, punk e jazz rock que deixou a audiência de queixo caído!
Straight to the point é o nome do fresquíssimo e cativante EP que os Youth Yard trazem na bagagem, e é igualmente a forma que o jovem quinteto de Viana do Castelo escolheu para servir as suas malhas que que têm tanto de orelhudo quanto de rebelde e elétrico! Munidos de uma sonoridade muito atual que passeia entre o Post-Punk e o Indie Rock, os Youth Yard mostraram talento e garra de sobra, contagiando o público que enchia a sala.

Mais uma banda, mais um disco novo. A banda chama-se Awaiting the Vultures, e não é uma banda qualquer. É uma banda de culto, e uma banda da terra. Depois de um longo período em hibernação, o quarteto liderado pelo prolífico e multifacetado Xinês, regressou ao ativo no ano passado e editou em fevereiro passado o seu segundo álbum Circle pleno de malhas Post-Metal instrumental que tem tanto de hipnotizante quanto de eletrizante – uma trip progressiva e angular! E foi com este fundo sónico, que nem banda sonora de uma saga, que o quarteto eborense conseguiu cativar a muito composta sala da SOIR!
Se a atuação dos Awaiting the Vultures poderá ser vista e sentida como o rebentar de uma onda sónica que foi crescendo ao longo da noite, a electrónica-cósmica-tropicalista dos Beautify Junkyards representa a calma contemplativa da beira-mar, bem longe da rebentação. Enquanto aguardamos pela edição de Nova, o próximo álbum da banda, fomos presenteados com uma atuação delicada, mas segura do quinteto capitaneado por João Branco Kyron, que guardou para o fim a versão de “Que O Amor Não Me Engana“ do mestre Zeca Afonso!
E que bela forma de concluir a oitava edição do Capote Fest!













































































