Há discos que chegam como um manifesto silencioso, quase um sussurro teimoso contra a corrente do tempo, no qual se fica a matutar para lá do seu término.
Cameron Winter perceberá pouco de marketing? O que raio leva alguém a lançar álbum em Dezembro, quando as listas de melhores do ano já se encontram fechadas ou mesmo, nalguns casos, publicadas? Eu não sou entendido em indústria da música, mas parece-me grande erro. Não que as pessoas devam fazer com que a sua pesquisa musical dependa dessas listas, há vida para além delas, é um facto, mas um bom melómano usa-as para descobrir aqui e ali discos que tenham escapado e que serão potenciais merecedores de atenção. Este caso específico levou a que várias publicações o considerassem para melhores álbuns de 2025, quando o álbum foi lançado a 6 de Dezembro de 2024, uma bela idiotice. Mas deixemo-nos de fait divers e vamos ao que interessa – a qualidade suprema de Heavy Metal.
Há discos que chegam como um manifesto silencioso, quase um sussurro teimoso contra a corrente do tempo, no qual se fica a matutar para lá do seu término. Heavy Metal é exatamente isso: um gesto íntimo de resistência, um trabalho que rejeita a grandiloquência prometida pelo título, para entregar algo muito mais frágil, torto e profundamente humano. Winter, conhecido pela sua urgência nervosa nos Geese, aqui está claramente interessado noutra coisa — menos em atacar, mais em permanecer.
Getting Killed foi, inequivocamente, um dos grandes discos de 2025. Conquistou-me com o seu desarranjo físico e emocional, a incerteza do que encontrar a cada esquina nas suas canções, a sua pujança num momento que requer resiliência. Mas antes disso havia Cameron Winter a solo e eu desconheci durante algum tempo a ligação, e quando lá fui, já não houve retorno.
Com um inconfundível estilo vocal (barítono “encorpado” ou profundo), Winter confere um tom emotivo, por vezes desesperado, ao seu trabalho. A sua voz, por mais divisiva que seja, é um elemento fundamental e marcante na sua música. Quando Winter começa a cantar em falseto a palavra “babies”, em “Cancer of the Skull”, há uma pontada de dor — uma das muitas no disco, que atinge, inevitavelmente, a medula espinal e todos os nervos de um ser humano. É um dos momentos mais tensos do disco, com as suas imagens de desgaste mental e repetição obsessiva, frases que ficam a martelar na cabeça.
Já “Drinking Age” funciona quase como um espelho distorcido da energia dos Geese. Há ironia, há ritmo, mas tudo filtrado por um cansaço existencial. Se, nos Geese, Winter parece lutar contra o mundo com dentes cerrados, aqui ele escolhe sentar-se no chão e observar os estragos feitos. Ainda assim, a identidade é inconfundível: a voz levemente desalinhada, o fraseado imprevisível, a recusa em soar confortável.
Em “0$” é o debate interno que cativa. Possuirá Winter informação que pode provar definitivamente a existência de Deus? Bem, não exatamente, mas quando proclama repetidamente “God is real” no êxtase final da canção, soando como um homem possuído, com a convicção de um Moisés a descer cambaleante do Monte Sinai, é difícil não acreditar (mas, obviamente, não existe.).
Mas o ponto alto do disco é “Love Takes Miles”. Nela, o tempo estica, a melodia cambaleia, dá a ideia que está sempre prestes a desabar, mas lá se vai aguentando. Por estranha que pareça, consegue-se encontrar uma ternura quase desconfortável, reforçada por linhas que soam como confissão:
“Lonely as hell, walking around
Without moving, I’m not here.”
A música não busca uma solução, revolve na dúvida, e é justamente aí que encontra sua beleza. O amor precisa que sejam percorridas milhas, mas o prazer de as percorrer é extasiante. A descoberta de um precipício de paixão, o descer essa colina abaixo esquecendo os travões, aceitando que te vais perder um pouco — e que talvez seja isso que te aproxima de quem és, quando amas. O momento em que te chama, inesperado.
“Love will call
When you’ve got enough under your arms
Oh oh, mama
Love will call
Love will make you fit it all in the car
Oh oh, mama
Something will take you
By your pants, and
Swing you over his head and kick you back and forth
Heavy Metal é um disco que se nega a cumprir expectativas, inclusive as criadas pelo próprio autor. Não é um álbum que grita, mas insiste em ficar na cabeça de quem o ouve. E, nessa insistência melancólica, Cameron Winter prova que a sua força não está apenas na explosão caótica dos Geese, mas também na coragem de se expor em volume baixo — onde tudo, paradoxalmente, pesa mais. Ouvi-lo é uma bênção, e continua a ser pela quantidade de recantos que vamos descobrindo a cada audição.