Bonnie “Prince” Billy volta com um novo álbum, carregado de melodias bonitas e com um forte sentido de comunidade.
Provavelmente, como a tantos outros, a primeira vez que ouvi falar de Will Oldham, aka Bonnie “Prince” Billy, foi pela interpretação de Johnny Cash da incrível “I See a Darkness”, com coro do próprio Oldham. O Man in Black trouxe muitas coisas positivas à minha vida (isso seria todo um outro texto), mas uma delas foi certamente a curiosidade de conhecer melhor o reportório de Bonnie “Prince” Billy.
Dotado de uma voz melancólica e suave, carregada de emoção, o artista é uma referência (e bem) na cena folk, country, americana e até indie, tendo lançado mais de 30 (!) discos sob este pseudónimo. Aqui no Altamont já muito o referimos quer em crónicas a discos (The Purple Bird, I See a Darkness e Pond Scum) quer em reportagens de concertos seus (São Luiz 2014, São Luiz 2025).
We Are Together Again será (se as contas de somar estiverem bem feitas) o seu 31.º álbum, e foi gravado em Louisville, Kentucky, firmando o tom de americana já habitual. Segundo o próprio, estas dez músicas foram criadas ao mesmo tempo que gravava, em Nashville, o álbum anterior The Purple Bird, tendo voltado a Louisville para terminar este novo disco.
Ao longo do disco é muito perceptível que esta gravação foi feita em comunidade, para a comunidade. Conta com participações dos actuais membros que o acompanham em tour, Jacob Duncan (flauta e saxofone) e Thomas Deakin (clarinete, flauta de bisel, guitarra eléctrica barítono, acordeão, corneta), juntamente com Ryder McNair, Chris Bush, Ned Oldham e Erin Hill. Também participam Catherine Irwin, Lacey Guthrie, Tory Fisher e Katie Peabody.
O álbum pretende ser um bálsamo e uma voz de resistência contra um mundo em constante mudança (para pior?). Ao abordar temas como o medo, ou o sentimento de perda de fé (“Why is the Lion”, “Strange Trouble”), apatia genérica (“They Keep Trying to Find You”), ao mesmo tempo que contrapõe com um sentido muito forte de Comunidade – aquilo que nos vai permitindo sobreviver (“The Children Are Sick”) –, Will Oldham consegue um equilíbrio difícil.
“Why is the lion still here, outside? Why is our bravery tested? Haven’t we proved that our love won’t be moved? Isn’t it time we are rested?” da última música “The Bride of the Lion”, é um excelente exemplo de resiliência que perdura ao longo do álbum, não só aqui.
De tons melódicos, tristes e reconfortantes, com alguns rasgos de alegria menos contida (“(Everybody’s Got a Friend Named Joe” e “Vietnam Sunshine”), o disco respira como um todo (mais a puxar para um suspiro intenso que sai cá de dentro, vocês percebem).
É um disco, sobretudo, sobre como cada um de nós tem uma voz e que a deve usar, na medida do seu alcance e que nos (re)lembra que juntos, somos mais fortes (nunca cringe). É o próprio Will Oldham quem o diz (num press release a propósito do disco): “Não é uma negação do colapso, o que seria ilusão, mas uma espécie de desafio: permanecer plenamente humano, plenamente alegre, num mundo com um horizonte cada vez mais estreito.” É um grande desafio. Estaremos à altura?