Self Portrait revela-se incoerente na sua coerência caótica, confuso no seu propósito e uma certa miscelânea que talvez Dylan precisasse de deitar cá para fora para algum tipo de purga.
Bob Dylan é, tanto homem quanto artista, envolto em mistério e lendas em relação às quais podemos apenas especular. Sempre discreto e imprevisível, fez por ter uma carreira de vários capítulos, de alguma forma (in)constantemente fiéis àquilo que queria para si. Ainda que com alguns dissabores pelo caminho, o miúdo que era do contra e que fazia o oposto do que se lhe esperava cimentou o prestígio de um dos maiores cantautores de todos os tempos, mesmo que nunca tivesse sido essa a sua ambição. As histórias são muitas e as opiniões dividem-se e a verdade é que é possível que nunca venhamos a conseguir fazer um retrato completo e fidedigno de Dylan. Self Portrait, para muitos o seu pior álbum, talvez nos dê algumas pistas.
Antes de completar 30 anos, Dylan passou uma década a revitalizar a música folk e a revolucionar a arte de escrever canções numa época política e socialmente efervescente, e a, depois, enervar os fãs mais dedicados ao folk ao incorporar elementos eléctricos a partir do seu quarto álbum e transitar para outros estilos musicais como o rock e o country. A fama imediata e maior do que as estrelas, assim como a pressão para fazer e ser tudo o que lhe era pedido desgastaram o muito jovem Bob Dylan, que se refugiou no abuso de substâncias e no desprezo pelas regras que lhe pareciam cair do céu. O grave acidente de viação de 1966, que lhe valeu umas quantas vértebras partidas, permitiu-lhe, enfim, uma reclusão do olho público.
Foi com a mítica frase “Que merda é esta?” que Greil Marcus abriu a sua crítica a Self Portrait na Rolling Stone, em 1970. Lançado durante a fase country de Dylan, o álbum gerou alguma confusão e, até hoje, parece não haver consenso quanto ao que era suposto ser aquele disco duplo — o segundo depois de Blonde on Blonde (1966). A maioria das 24 faixas que fazem o álbum de 1 hora e 14 minutos são covers country folk e, mesmo com a ocasional inclusão de um coro de vozes femininas ou de uma trompa, são esteticamente algo monótonas. As cinco músicas originais acabam por ser todas meio deslocadas do dylanismo e, pode mesmo dizer-se, aleatórias.
Self Portrait revela-se incoerente na sua coerência caótica, confuso no seu propósito e uma certa miscelânea que talvez Dylan precisasse de deitar cá para fora, para algum tipo de purga. Se algumas músicas foram gravadas com banda em estúdio, outras foram gravadas acusticamente por Dylan, acrescentando-se-lhes, depois, overdubs. Há ainda quatro faixas gravadas ao vivo no Isle of Wight Festival em 1969, incluindo as suas “Like a Rolling Stone”, do Highway 61 Revisited (1965), e “She Belongs to Me”, do Bringing It All Back Home (1965). Entre os originais, são dignos de menção “Woogie Boogie” e “Wigwam”, ambas músicas instrumentais gravadas num único take, e “All The Tired Horses”, faixa de abertura do disco, onde a frase “All the tired horses in the sun / How’m I supposed to get any ridin’ done? Hmm.” é cantada repetidamente pelo tal coro feminino, quase que como eternamente à espera de um lead singer que nunca aparece. Esta é uma música no mínimo estranha para o repertório de Bob Dylan, mesmo no enquadramento deste longa-duração, mas é simultaneamente curiosa e bonita e faz, sinceramente, valer a pena a escuta do álbum.
O que torna Self Portrait num objecto verdadeiramente interessante, então, é a sua recepção e as consequentes tentativas de Dylan de o justificar, que nunca bateram muito certo. Primeiramente, a capa do disco é um auto-retrato real, o que pode significar que foi um lançamento furioso contra as expectativas externas que lhe pesavam, gritando “eu não sou nada dessas coisas, sou todas elas e tudo mais que não fizer sentido nenhum”. A teoria que encaixa melhor, ainda assim, é a de que Dylan estava saturado de tentar lançar música que superasse a ‘perfeição’ do início da carreira e fez este disco para que parassem de o chatear e o esquecessem, pelo menos durante uns tempos. A ideia seria desapontar tanto os fãs que não quisessem saber mais do seu trabalho, deixando-o, finalmente, em paz para escrever as canções que lhe apetecesse, sem a pressão de serem grandiosas. Infelizmente para ele e felizmente para o mundo, a táctica não funcionou e só deixou os seus devotos à espera que a neura lhe passasse e regressasse à programação habitual sem demoras.
Há quem rejeite que Dylan lançasse um álbum mau propositadamente e defenda que, antes, foi apenas uma escolha idiossincrática do seu tempo. Cá para nós, que gostamos da teoria de cima, Self Portrait é um gesto muito dylanesco, dentro da sua extravagância embaraçosa, consequência mais ou menos óbvia dos acontecimentos acumulados dos anos anteriores.