São canções escritas ao longo de dez anos e dão corpo ao primeiro disco a solo da vocalista dos Portishead, Beth Gibbons. Lives Outgrown é uma pérola que mergulha na perda e no sofrimento, sem pressas, mas com um profundo sentimento de que a vida, tal como a morte, têm de ser olhadas de frente. De preferência, com a poesia como expressão libertadora.
É um caminho que Beth Gibbons traça, mesmo sem qualquer garantia de que triunfará no final. As derrotas sofridas com o desaparecimento de entes queridos, entre familiares e amigos, geraram mais dúvidas do que certezas, mas a cantora não permitiu que a dimensão da perda atingisse uma profundidade irrecuperável. Ouvi-la é recordar, em parte, o que canta A garota não em “Dilúvio”: “E o que achamos importante/Perdemos mais adiante/ No fim, só restamos nós.”
“Compreendi aquilo que era a vida sem esperança e foi uma tristeza como nunca tinha sentido. Antes, tinha a capacidade de mudar o meu futuro, mas quando se luta contra o próprio corpo não se pode obrigá-lo a fazer algo que não quer. Agora que vim do outro lado, penso que há que ter coragem”, admitiu, quando o trabalho foi apresentado, em maio.
James Ford, com quem já trabalharam, por exemplo, Depeche Mode e Arctic Monkeys, ocupa-se da produção, em parceria com a cantora e ainda com Lee Harris (baterista dos Talk Talk). Há uma sonoridade de ambientes folk, marcada por guitarras acústicas e instrumentos de cordas em geral. O percurso inicia-se na lentidão anunciadora de “Tell Me Who You Are Today”, “Floating On A Moment” é uma preciosidade que se eleva acima de outras pela elegância dos arranjos, “Burden Of Life” tem uma batida tão inquietante como a própria letra, que nos fala de “um peso da vida que não nos deixa em paz”. “Lost Changes” é um hino que nos chama à atenção para os valores mais verdadeiros da vida, “Rewind” aponta para as alterações climáticas e os erros humanos na sua origem – fomos demasiado longe para voltar atrás –, “Reaching Out”, que começa um pouco acima do murmúrio, mas atinge as alturas, remete-nos para universos sonoros próximos dos Radiohead. “Oceans” é um mar de calmaria aparente, “For Sale” lembra “Moonlight Shadow”, de Mike Oldfield, com a voz de Maggie Reilly, aqui num recorte musical de Oriente, “Beyond The Sun” veste-se de sombria balada medieval e “Whispering Love” é um final radioso por entre “as árvores da sabedoria”.
Parece impossível que tenham já decorrido 30 anos desde o poder arrebatador que transmitia Dummy, estreia dos Portishead em álbuns de estúdio. Além de Portishead (1997) e de Third, disco que a banda apresentou em 2008, as presenças de Gibbons foram escassas e, por norma, ligadas a colaborações. Como o fez com a Orquestra Sinfónica da Rádio Nacional Polaca e a “Sinfonia n.º 3” ou “Sinfonia das Canções Tristes”, de Henryk Górecki (interpretação de 2014 com edição discográfica em 2019), ou já fizera com Paul Webb em Out of Season (2002). Num outro registo invulgar, em agosto de 2023, assinalando o segundo aniversário da retirada norte-americana do Afeganistão, ao lado de jovens refugiadas afegãs no grupo The Miraculous Love Kids of Afghanistan, Gibbons interpretou “Atmosphere”, dos Joy Division, e “Heroes”, de David Bowie.
Num puzzle de emoções bem vincadas, Beth Gibbons permanece dominadora de atmosferas melancólicas sem soar a falso, com uma voz que nunca deixa de perturbar e questionar. O regresso da sua rara sensibilidade é uma das grandes notícias de 2024, responsável por um dos melhores álbuns do ano.