O momento em que os Belle and Sebastian providenciam ao transeunte mais um belo disco soalheiro, recheado de boas histórias onde pessoas procuram orientar a sua vidinha. Sem sucesso, pois claro.
Para o mais recente episódio do nosso Rádio Clube Altamont, escolhi como disco de estimação Dear Catastrophe Waitress, o disco que me fez entrar nos Belle and Sebastian. Este The Life Pursuit foi o que se seguiu e também tem o seu cantinho guardado cá dentro e o seu encanto muito próprio, sobretudo pelas canções “Another Sunny Day”, “For the Price of a Cup of Tea” e “Sunshine Song”. Nos reviews dos vários outros discos da banda que estamos a fazer por estes dias no Altamont, já praticamente tudo se disse sobre a sonoridade desta banda, o sabor a algodão docinho que nos entra via ouvidos quando os apanhamos.
Mas o que me conquista verdadeiramente nesta banda escocesa, é sobretudo a capacidade de Stuart Murdoch nos contar histórias, nos puxar para os meandros do dia-a-dia de pessoas comuns, com as suas dúvidas existenciais que acompanham o ser humano desde sempre. Achei portanto que a melhor forma de o homenagear seria contando uma história, que é, no fundo, o resumo Europa-América que ninguém pediu deste belo disco. Se ainda não o fizeram para acompanhar a leitura, agora é o momento de carregar no play no link do spotify ali abaixo.
The Life Pursuit: à procura de qualquer coisa (um conto inventado)
Há uma rapariga que não consegue encontrar sentido nas coisas. A mãe está doente, a escola parece inútil e as histórias da Bíblia, por mais milagres que prometam, não lhe explicam grande coisa sobre a vida. Talvez seja por isso que um dia decide partir, à procura de uma resposta que não venha dos livros nem das pessoas que lhe dizem como deve viver.
Lá fora, o sol brilha, mas nem todos parecem preparados para aproveitá-lo. Há quem transforme um dia bonito numa oportunidade para recordar um amor perdido, quem vista um fato e uma gravata para fingir que tem tudo sob controlo e quem descubra, entre a roupa que não consegue lavar sem tingir de tristeza, que há desgostos que não saem com detergente. Outros passam os dias a tentar ser alguém, a invejar a vida dos outros, a desejar vestir a pele de quem parece ter encontrado o segredo do sucesso.
Pelos passeios da cidade anda Sukie, que prefere o cemitério às salas de aula e parece ter percebido qualquer coisa que os adultos ainda não alcançaram: a vida não tem necessariamente de obedecer às regras que nos ensinaram (sim, a vida é bué cenas). À sua volta, os dias passam entre conversas sonolentas, sonhos adiados e pequenas revoluções interiores. Há quem procure a luz do sol, quem espere por um amor que talvez só exista na sua imaginação e quem descubra que ser verdadeiramente si próprio implica, inevitavelmente, desiludir alguém.
Entretanto, a rapariga continua a sua viagem. Procura uma voz, um rosto, uma qualquer manifestação de fé que lhe permita acreditar que existe algo para lá do que consegue ver. Mas o mundo não é particularmente generoso com quem procura respostas: até as portas da igreja fecham-se na cara de quem chega com perguntas sinceras (igrejas nunca se deram bem com quem questiona). Resta-lhe a música, esse lugar improvável onde uma canção com poucos minutos pode oferecer o conforto que as outras pessoas recusam.
Será isso que todos procuramos? Uma razão para sair da cama de manhã, uma pessoa que nos veja como gostaríamos de ser vistos, uma melodia capaz de transformar um dia banal em qualquer coisa extraordinária? Por vezes, basta uma chávena de chá, um disco a rodar ou uma noite que se prolonga andando por uma cidade fora, sem grandes explicações.
E quando chega a manhã, a vida continua, com os seus enganos, as suas desilusões e a possibilidade remota de que tudo venha a fazer sentido. Ninguém encontrou propriamente o caminho, mas, por agora, é divertido continuar à procura.
O mundo seria um sítio melhor se todos fossemos mais bellesebastianescos, isso é certo.