Os Belle and Sebastian encontram beleza nas pequenas misérias do quotidiano e lembram-nos que, muitas vezes, é no que parece não ter nada de extraordinário que está tudo. Fazem-no com melodias luminosas, que contrastam com a melancolia das palavras e dão às histórias mais banais uma beleza particular.
Lançado em setembro de 1998, The Boy with the Arab Strap é o terceiro álbum de estúdio dos escoceses Belle and Sebastian, sucedendo a Tigermilk e If You’re Feeling Sinister.
Foi na faculdade que aprendi a gostar dos Belle and Sebastian, e foi com este disco que começou a minha relação com a banda. Embora não seja uma fã acérrima, sempre gostei do contraste entre as melodias alegres e as palavras, que tantas vezes nos fazem sentir melancólicos.
Este disco não é exceção. Os primeiros acordes são alegres, quase luminosos, mas basta chegar à primeira frase para percebermos que nem tudo é o que parece. “He had a stroke at the age of 24”. É assim que começa o álbum, com a história de alguém que teve um AVC aos 24 anos.
Há qualquer coisa de próximo da perfeição nos arranjos deste disco. Talvez porque assinala uma fase de maior abertura à dimensão coletiva da banda, com mais vozes, mais compositores e mais contribuições instrumentais, que enriquecem os arranjos sem perder a delicadeza melódica que os caracteriza.
As vozes, os instrumentos e as diferentes camadas vão-se encontrando com uma naturalidade que faz tudo parecer simples, embora haja muito a acontecer. É um disco cheio de vida, que transmite alegria e, por vezes, paz. Não uma paz permanente, mas aquela que aparece no meio da melancolia, sem a apagar. Talvez seja precisamente essa coexistência de sentimentos que torna este álbum, e os Belle and Sebastian, tão especiais.
As letras parecem pequenos contos, cheios de personagens e pormenores que aparentam não querer dizer nada de extraordinário, até percebermos que é precisamente aí que está o interesse. Na faculdade onde descobri os Belle and Sebastian, também estudei Sociologia e li “A Representação do Eu na Vida Quotidiana”, de Erving Goffman. Pessoalmente, adoro olhar para os estranhos e pensar nas suas vidas, nas vidas que os Belle and Sebastian contam e cantam.
Na faixa que dá nome ao disco, “The Boy with the Arab Strap”, há um retrato do quotidiano feito de pequenas observações, comportamentos e contradições. Há espaço para o ridículo, a vaidade e as pequenas misérias de cada um, mas também para alguma ternura. “Colour my life with the chaos of trouble / ‘Cause anything’s better than posh isolation / I missed the bus”. Afinal, não é preciso que as pessoas sejam extraordinárias, ou particularmente admiráveis, para reconhecermos nelas qualquer coisa de especial. Este disco até podia trazer um disclaimer: «Atenção, este álbum contém ironia».
Os Belle and Sebastian escrevem sobre pessoas comuns sem as tornar mais interessantes do que são, mas também sem as reduzir às suas fragilidades. Da banda fazem parte vários instrumentos e várias vozes, que se conjugam numa melodia uníssona. Talvez essa seja a verdadeira arte dos Belle and Sebastian: pegar no muito e fazer dele uma coisa bela, sem nunca ser nada.