No passado dia 11 de fevereiro, a Casa Capitão abriu portas para um encontro onde a música foi muito mais do que entretenimento. O concerto solidário “Amor ao Centro” reuniu artistas e público com um propósito claro: apoiar e angariar fundos para as populações afetadas pelas fortes tempestades que recentemente atingiram várias regiões de Portugal.
Num ambiente de proximidade e entrega, o cartaz refletiu a diversidade e vitalidade da nova música nacional, cruzando universos sonoros distintos numa mesma causa. Subiram ao palco Ana Lua Caiano, Ana Mariano, Beatriz Pessoa, Bia Maria, Inês Apenas, Iolanda, Jasmim, Joana Espadinha, João Maia Ferreira, JÜRA, Lura, Mães Solteiras, Marisa Liz, Mike El Nite, Surma e xtinto.
Entre momentos intimistas e atuações mais expansivas, o alinhamento construiu-se numa lógica de partilha e comunhão, reforçando a ideia de que a cultura tem um papel ativo na resposta às crises. “Amor ao Centro” não foi apenas um concerto, foi uma afirmação coletiva de solidariedade, união e amor ao próximo, em tempos tão difíceis vividos pela população portuguesa.
Ana Lua Caiano abriu espaço com a sua fusão singular entre tradição oral e eletrônica minimalista, criando uma atmosfera quase ritualista que convidou o público a escutar de forma profunda. Logo depois, Ana Mariano mergulhou num registo delicado e emocional, sublinhando a vulnerabilidade como força.
A escrita sensível de Beatriz Pessoa encontrou eco imediato na sala, enquanto Bia Maria trouxe intensidade e franqueza, numa atuação marcada por entrega total. Inês Apenas reforçou esse lado confessional, com uma presença segura e emotiva que captou a atenção do público do primeiro ao último verso.
Num território mais expansivo, Iolanda e Jasmim exploraram as possibilidades da pop contemporânea, equilibrando sensibilidade melódica e afirmação estética. Já Joana Espadinha trouxe o seu habitual carisma e uma relação próxima com o público, lembrando que a canção pode ser simultaneamente íntima e coletiva.
JÜRA acrescentou uma camada de subtileza e contemplação, contrastando com a energia vibrante e descontraída do punk hardcore português de Mães Solteiras, que injetaram dinâmica e ritmo na sala.
Um dos momentos mais marcantes da noite chegou com Lura, cuja força interpretativa e ligação às raízes cabo-verdianas ampliaram o sentimento de comunidade além-fronteiras. A intensidade de Marisa Liz reforçou a dimensão emocional do evento, num desempenho onde experiência e entrega caminharam lado a lado.
A diversidade sonora ficou completa quando Mike El Nite, João Maia Ferreira e xtinto, entraram em palco e trouxeram urgência e frontalidade ao público com suas rimas de rap, e com Surma, que envolveu a sala em texturas atmosféricas e camadas sonoras etéreas.
Ao longo da noite, não faltaram colaborações espontâneas, dedicatórias às populações afetadas e palavras que iam além do alinhamento musical. “Amor ao Centro” mostrou que a cultura não vive à margem da realidade. Num tempo de reconstrução, a música funcionou como gesto concreto de apoio e como lembrete de que a solidariedade também se constrói em palco.
Na Casa Capitão, naquela noite, cantar foi mais do que interpretar. Foi estar presente. Foi cuidar. Foi, literalmente, pôr amor no centro.
Texto e fotografias: Felipe Kido





























