Deixo, sob compromisso de honra, pouco mais de 600 palavras que não conseguem sequer começar a descrever o que se passou no dia 11 de fevereiro de 2026, na Culturgest, em Lisboa.
Raras são as vezes em que fico verdadeiramente assustado com quem está em palco. Quando isso acontece, geralmente, é porque tenho receio dos danos físicos que aquela pessoa me pode causar num cenário hipotético de pancadaria. Mas não só não tenho coragem suficiente para aguentar confronto, como o meu fraco esqueleto mal consegue suster as batidas fortes do bombo a ser espezinhado. Imaginem o que seria então se um vocalista tresloucado decidisse enfiar-me um microfone pelo lobo frontal adentro como se estivesse possuído pelo espírito de António Egas Moniz.
Mas tudo muda quando temos alguém com a aura de Diamanda Galás em palco. Não que a sra. Galás não me pudesse injuriar à séria fisicamente, porque acredito que sim, mas porque ultrapassa simples definições do que é assustador e não é. E também porque me conseguiu transformar as entranhas em pó assim que pisou os palcos de uma Culturgest onde não havia espaço para pregar nem mais uma cadeira.
Não foi preciso sacrificar nenhum animal, porque cada alma pagante (e não pagã) foi colhida pela própria Galás. Se me estou a banhar em alguma imagem mais grotesca, é apenas para servir de conforto à verdadeira presença animalesca que Diamanda tem em palco e porque estou verdadeiramente intimidado em ter de escrever algo que lhe seja digno.
E talvez seja assim que tenha de caracterizar Diamanda Galás, que parece ser uma junção das pessoas mais cativantes que este planeta tem para oferecer, numa excelente amálgama que deverá ser preparada de bandeja, como espécime-mor da raça humana, para qualquer visita alienígena que se avizinhe.
Mais uma vez, peço desculpa por todo o imaginário de série B que despejo para aqui, mas a própria Galás tem uma costela científica com um passado em Bioquímica que apenas faz com que a sua personalidade sombria pareça ainda mais a experiência certa, quando se pensa que não só também tem uma influência severa de literatura gótica como uma ligação de amor com o que bem lhe der na real gana.
Na entrevista publicada pela Blitz, há uns dias, há uma menção a Fernando Pessoa que eu não consigo descodificar para além do título porque não tenho acesso pago ao Expresso e afins. Mas eu garanto que quem teve acesso pago a este concerto ficou mais ou menos com a mesma sensação. Ora Diamanda Galás parece uma diva saída da ópera preferida de uma gárgula qualquer, ora está a mencionar o neto não menos ecléctico de Hank Williams em pleno palco português. Falamos de alguém que se vincou liricamente com temas que passavam pela epidemia da SIDA como genocídios do início do século XX, alguém que trabalhou com John Paul Jones e que admirava o lendário comediante Don Rickles.
Claro que isto tudo é muito bonito, mas é aquela voz indiscritível que nos rouba toda a atenção. Num registo quase inexistente em teoria, Galás explode, rompe, rosna, sussurra, contorce, faz trinta por uma linha às suas cordas vocais e dedilha livremente ao piano, sempre com determinação e um propósito que parece mesmo saído de uma realidade com regras gravitacionais diferente das nossas.
Se tudo o que escrevo parecer uma mão cheia de nada para transmitir o que senti naquele dia, talvez o seja. Se tudo o que escrevo parecer uma amálgama de várias linhas de pensamento imperceptíveis, talvez o seja. Mas se eu tiver conseguido ilustrar uma única gota do fascínio e mistério que senti ao ver Diamanda Galás, talvez seja melhor não revelar mais. Apenas recomendo que o façam vocês mesmos, ou voltem a fazer, antes que a escuridão a peça de volta.
Fotografias: Vera Marmelo











