O EP de estreia, que mostra ao mundo uns AIR mais exploratórios e menos pop, mas já com todos os sinais das suas influências e da sua sofisticação sonora.
Ainda antes de haver a bomba que foi Moon Safari, os primeiros sintomas andavam no ar, mas apenas para os mais atentos. A dupla francesa composta por Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel andava a estudar (arquitectura e matemática, respectivamente), quando decidiram juntar a sua amizade e o amor pelos sons retro-electrónicos e fazer um projecto musical.
A meio da década de 90, Dunckel entrou entusiasticamente nas ideias que Godin andava a desenvolver no seu apartamento, praticamente transformado num pequeno estúdio caseiro, cheio de sintetizadores vintage e outros teclados, com espaço para pouco mais do que uma cama e um sofá.
A dupla começou a ganhar algum nome no underground francês inicialmente através da remisturas para outros artistas emergentes, e é a partir de 95 que o grupo faz as primeiras gravações e edita os seus primeiros singles. Este disco de que falamos agora, Premiers Symptômes, não é mais do que um EP que reúne esses primeiros cinco singles.
Há um ponto importante na reconstituição da história dos Air, sobretudo no que toca não à cronologia em que os factos aconteceram, mas à linha temporal em que o grande público se apercebeu do que acontecia. Isto para explicar que, apesar de Premiers Symptômes ter sido editado em 1997 – e ter tido algum sucesso, nomeadamente em França e em Inglaterra – isso sucedeu antes de Moon Safari (de que falámos aqui), que é do ano seguinte. Com o sucesso do primeiro LP, Premiers Symptômes é reeditado em 1999, com a junção de mais duas músicas (fazendo um total de sete), e foi nesta altura que o mundo em geral tomou contacto com este disco. Ou seja, este acabou por, na prática, ser o o segundo disco de Air que o mundo ouviu (apesar de ter sido o primeiro a ser editado). Foi também assim que aconteceu com o autor destas linhas.
Como já foi dito, Premiers Symptômes (na versão “definitiva” de 99) tem apenas sete temas e 34 minutos. Os primeiros cinco temas, do EP original, são “Modular Mix” – o primeiro cheirinho que o mundo teve dos Air, e ainda fruto sobretudo de trabalho a solo de Nicolas Godin – , “Casanova 70” e “Les Professionnels” do single Casanova 70, e “J’ai dormi sous l’eau” e “Le soleil est pres de moi”, do single com o nome desta última música. Na versão de 99, acrescentam-se dois temas apenas: “Californie”, lado B tirado do flexidisc de “Sexy Boy”, tema-bomba de Moon Safari; e “Brakes on”, do single de Alex Gophier Gordini Mix.
Como se pode perceber por esta descrição, nada disto foi pensado como um álbum. É, por isso, extraordinário como na verdade Premiers Symptômes funciona como tal na perfeição (bom, talvez com a ligeira excepção de “Brakes on”, a mais acelerada e atípica deste trabalho, mas que mostra pistas que os Air viriam também a explorar mais tarde).
O resultado final é um disco maioritariamente lento, quase totalmente instrumental, e já profundamente elegante, algo que seria até hoje a marca de água do grupo francês. Em regra, os temas são longos e relativamente esparsos: teclados, baixo, bateria discreta, sopros sintetizados. É como ver as traves-mestras de futuras construções sumptuosas que os AIR viriam a dar ao mundo.
E atenção, este não é um EP tosco, gravado à pressa por uns jovens imaturos em modo punk-rock. Está imaculavelmente registado, o ambiente é quase de laboratório, onde tudo está no lugar certo, ainda que possa ser o laboratório mais cool e estiloso de sempre, com uma boa alcatifa e pelo menos uma excelente cadeira de Van der Rohe.
Na verdade, está cá tudo, nomeadamente as influências. O som retro-futurista, o amor ao som de estúdio de Serge Gainsbourg, às bandas sonoras de filmes de amor ou de gangsters dos anos 60 e 70. Um disco profundamente moderno mas que insistia em colocar-se teimosamente num tempo que já havia passado e que era apenas imaginado.
Para quem, como eu, conheceu os AIR com Moon Safari, a tarefa seguinte foi, num mundo pré-spotify e praticamente pré-internet, procurar qualquer outra música destes rapazes tão fora do comum e que me haviam encantado à primeira. Felizmente, a solução veio numa forma dupla: com Premiers Symptômes e com a banda sonora de As Virgens Suicidas, o primeiro filme de Sofia Coppola, ainda em 1999.
Quanto ao EP de estreia, a primeira reacção foi a de perceber que o mundo de Moon Safari não havia sido uma feliz coincidência. Havia um caminho, um antes, e sobretudo havia uma estética absolutamente coerente que parecia desenhada para aqueles tempos de viragem de milénio. Face a Moon Safari, as grandes diferenças é que, aqui, temos uns Air mais puros, mais despidos, mais focados em deixar os temas desenvolverem-se a seu bel-prazer, antes de tentarem a jogada de cruzar a sua identidade única com um registo mais pop (que funcionaria tremendamente no LP de estreia).
O grande piscar de olhos, a ponte entre passado e presente, estava na belíssima “Les Professionnels”, na qual ouvidos mais atentos reconhecem o esqueleto musical da magnífica “All I need”, de Moon Safari. Aqui, sem voz e sem pressas, temos já uma grande música que viria a ser ainda melhor. Nesta primeira vida, neste primeiro sintoma, ainda livre da estrutura pop que tentariam logo de seguida, o que temos é um caminho mais lento, mais livre, com espaço para vários tipos de teclados entrarem e espalharem o seu charme. É quase uma lindíssima e relaxada remistura de uma música que o mundo só viria a conhecer depois.
Premiers Symptômes não é dos trabalhos mais conhecidos dos AIR, mas reclama para si mais atenção e um indiscutível lugar entre os discos mais bonitos e relevantes da dupla francesa. E mais, que não envelheceu uma ruga.
Ora vá lá descobrir ou matar saudades, e veja se não temos razão.