Foi preciso esperarmos 6 anos até ao lançamento de Demorar, mas Afonso Cabral fez com que valesse a pena.
Que Afonso Cabral se desdobra em projetos criativos não será novidade por aí além, mas este disco a solo é algo que vale a pena destacar, entre os lançamentos deste ano. Durante quase 40 minutos e nove canções, sentem-se por todo o lado as boas influências musicais, com óbvia referência a Bruno Pernadas e You Can’t Win Charlie Brown.
Ainda assim, o – chamemos-lhe truque – deste disco é que Afonso Cabral, a solo, consegue ser musicalmente distinto de todos os projetos em que participa.
A primeira canção “Indivisível”, também single do disco, é uma bonita composição com várias camadas. Toques de jazz na bateria e seção de sopros e também as várias mudanças rítmicas que preenchem o tema fazem com que “esteja tudo ligado ao nervo central“. Tenho para mim que um bom disco tem de ter uma excelente primeira canção. E é este o caso.
Logo a seguir, “Confusão / ざわめき”, com a participação de Shugo Tokumaru, faz-me muito feliz. Primeiro porque mais alguém conhece este cantautor japonês, cuja voz tão bem liga com a de Cabral, e depois porque é uma grande confusão, também sonoramente, onde tudo encaixa.
A partir daqui o álbum vai escorreito, num bom indie, com destaque para a participação de Manuela Azevedo em “Demorar”, que dá automaticamente mais pontos a qualquer canção. Mas depois temos a “Resistir”, a “Pronto para Mais”, a “Manel”… Ou seja, de cada vez que voltamos a ouvir o álbum, damos atenção a mais um pormenor, a mais uma canção, a mais uma palavra.
Por isso este Demorar é um disco que apetece ouvir repetidamente, e entra certamente no panteão dos melhores lançamentos de 2024.