A neblina londrina instala-se em Lisboa, carregada de melancolia e o selo sempre confiável da Amplificasom.
Eu adoro música triste, como adoro música pesada (não sei é se adoro o adjetivo, mas pronto). Quando as duas se juntam, é sinal de que é possível visitar as portas do Paraíso e voltar. É uma afirmação de que a música pode soar como mil comboios a vapor sem ter medo de nos sussurrar algumas das letras mais frágeis em que, se tivermos o coração disposto, entram que nem remédio santo pelas veias. E servem também de prova viva de que há algo bastante mais assustador e atmosférico do que demónios, banhos de sangue, sacrifícios e outra parafernália sugestivamente infernal – nós próprios.
Sim, há espaço para ambas as abordagens, mas dou graças redobradas quando oiço uma mistura tão certeira e devastadora como a que A.A. Williams nos propõe com as suas confissões pessoais, que deambulam entre a dúvida, o medo, a solidão, o amor e qualquer outro canto ondo o sofrimento se queira alojar. São cartas abertas e, ou muito me engano, extremamente pessoais e relacionáveis que complementam lindamente o ataque sónico que nos proporciona ao vivo.
A carreira de Williams não é longa, tendo começado algures em 2019 com um EP e uma perninha bastante revelatória no festival Roadburn, nos Países Baixos. Mas o seu lugar está mais do que assegurado no panteão de avisos como “tu tens de ver isto ao vivo e já!” e “prepara-te para o que aí vem”, sem esquecer o “não conhecia, mas vou passar a ouvir”.
Equipada de uma guitarra que toca de forma tão angelical como a sua voz, A.A. Williams vem também acompanhada de Matt Daly (na guitarra e vozes) e de Wayne Proctor (na bateria). Ambos ocupam o espaço estritamente necessário para tudo funcionar, sem ofuscarem desnecessariamente quem tem os cabelos mais longos na banda.
Não só a bateria de Proctor nos arremessa contra a parede quando menos esperamos, como as tais letras de Williams nos levam ao chão e nos arrastam até cada música acabar. Por sorte, ainda encontramos uns trocos pelo caminho e conseguimos pagar passagem para o além – tal não é a força bruta do que estamos a ver. Um tanque destruidor com um coração de porcelana. Delicadeza que arrasa por onde quer que entre, com uma iluminação atmosférica que não nos deixa ver para além de nós mesmos.
Pode parecer um problema ouvir tamanha tristeza e nos relacionarmos com a maior parte das palavras. Eu concordo, é uma tristeza. Mas é tão bom poder cantá-la com alguém.
Fotografias de Valter Dinis











