Os Imarhan transformaram o LAV num deserto hipnótico, onde guitarras, ritmos ancestrais e explosões de energia nos fizeram esquecer que estávamos em Lisboa.
É a pior frase inicial possível para apresentar um concerto transcendental de um grupo incrível no panorama mais árido do rock de hoje em dia – um que vem do mais profundo dos desertos. Só que de deserto o LAV não tinha nada, visto que Lisboa estava em massa (respeitando os limites da sua sala secundária) para celebrar não só o 20º aniversário dos Imarhan, não só o novo álbum da banda chamado Essam mas também todo o som hipnótico que se foi construído e difundido nos últimos anos por nomes como Bambino, Mdou Moctar e Etran de L’Aïr. É o mais próximo que vão ter de se montarem em cima de um camelo, andar de bossa em bossa, seja ela nova ou velha, sem mexer uma única palha. Quer dizer, se os Imarhan forem responsáveis pelo entretenimento da noite, garanto-vos que talvez se mexam até encontrar a tão famigerada agulha no palheiro.
Ou então a agulha do vosso gira-discos, tal não será a vontade de esgotarem o stock na banca da banda, se tiverem visto um concerto como este. Não posso mentir e dizer que percebo aquilo de que os Imarhan cantam. Pelo menos, não imediatamente. Primeiro que tudo, sou levado por toda a musicalidade de qualidade em palco. Há toda uma panóplia de instrumentos, tocada por mãos sábias, que é imediatamente captada pelos nossos ouvidos como algo único, genuíno e verdadeiro. Depois de tudo isso passar por mim penso que, tal como verdadeiros cantantes do blues, esta rapaziada esteja a cantar sobre dificuldades passadas, quer geográficas, históricas ou pessoais.
Talvez até com um pouco de misticismo e esoterismo à mistura. Bem, também posso confessar que fiz batota e fui ao Google espreitar esta última parte só para não me espalhar ao comprido. Mas sempre tive uma sensação de ser essa a verdade e, depois de uma pesquisa mais a fundo em que consulto algumas traduções das suas letras, isso confirma-se e a banda ganha uma nova dimensão.
Mas assim continuamos. Num embalo constante, e à mercê dos amigos oriundos de Tamanrasset, na Argélia. E eles é que sabem, não estivessem eles na chefia do alinhamento. E o público vai com eles, quer em algo mais hipnótico e calmante ou em aventuras mais eufóricas e primais. Não há uma nota errada que possam tirar das guitarras. Têm tudo sob controlo. Eles sabem disso e nós também. E pensem quão lindo isso é quando há toda uma barreira e distância linguística entre emissor e recetor. Se eu estiver a fazer patinagem artística com palavras demasiado (som de vómito aqui), eu friso, sublinho, risco, passo por cima e escrevo novamente que os Imarhan são mesmo à séria. São melódicos, serenos, intensos e contagiantes ao mesmo tempo.
Por admissão própria, têm uma ligação significativa a Ali Farka Touré e aos Tinariwen (com quem têm partilhado palcos desde que se lembram). A própria banda tem uma ligação conjunta muito forte, já que cresceram juntos e andaram nas mesmas escolas, o que deve ajudar na coesão musical quando tentam incluir elementos mais psicadélicos e progressivos como é o caso dos sintetizadores, que têm a missão de tecer umas texturas suaves que não estavam lá antes, neste último disco cujo nome pode ser traduzido para “relâmpago”.
E é assim que o som dos Imarhan entra, de rompante, embora meditativo e mais contido do que um verdadeiro relâmpago. Pelo menos até a banda se libertar, por completo, em “Achinkad” – a música de abertura do disco anterior, Aboogi. No entanto, é mesmo preciso ouvir a versão ao vivo para desbloquear todo o poder da música. Coisa que tenho a certeza que todos fizemos no LAV a julgar pela descarga de energia à minha volta. Ou, se calhar, foi o não-convidado especial que fez percussão com as palmas das mãos durante o concerto quase todo. Está tudo bem. Vou expirar e inspirar umas quantas vezes, ouvir mais um bocado de Imarhan e não ser rezingão. Porque é complicado sê-lo com esta banda, são como um difusor de boas ondas que se propaga com facilidade. E digo sem problemas, como pessoa que já teve a felicidade de passar uma noite no deserto, onde a mística estava sempre a ser quebrada com uma auto-estrada que se avistava ao longe, que este concerto pode ter sido ainda mais imersivo que essa estadia de uma noite. Ao menos aqui, as portas estavam fechadas, e o único caminho à minha frente era o som aconchegante e infinito dos muito bem viajados Imarhan.
Fotografias de Elena Leon.


















