Os Fontaines D.C. enfeitiçaram o público do Meo Arena, entre o transe e a melancolia do fim do mundo.
Escalados para fazer a primeira parte dos Fontaines D.C., os Chalk tinham a inglória missão de aquecer um público que só tinha ouvidos e coração para o grupo irlandês. Tentaram e tiveram reações mistas – se, por um lado, abanavam cabeças e corpos ao som do post punk eletrónico e noise rock do grupo (que entre sintetizadores e gritos ia correndo pelo palco), por outro houve quem achasse que era demasiado intenso para aquela hora e naquele contexto. Estariam melhor, naturalmente, numa rave em Berlim, O contexto ali era efetivamente difícil e diríamos que merecem uma nova oportunidade, noutro contexto e a outra hora.
A verdade é que a ansiedade por antecipação no Meo Arena era palpável. O público aguardava com impaciência e expectativa a entrada em palco dos Fontaines D.C.. Sendo o primeiro concerto da digressão do novo disco, Dopamine Chamber, lançado há menos de uma semana, não se sabia exatamente o que esperar.
De experiências anteriores sabíamos que são a personificação da energia em palco, que Grian Chatten tem uma postura de frontman discreto, mas magnético, que estão cada vez mais consistentes e sólidos no domínio dos instrumentos e que os concertos são despidos de grandes artifícios. É só música, pela música e para o público que ali está por eles.
Corações aos saltos no peito, ansiedade no máximo e à hora marcada luzes apagadas e um bruáaa de todos os lados. Após uma pequena introdução falada (um poema irlandês), os Fontaines D.C. entraram em palco debaixo de um aplauso gigante e não desiludiram, entregando-nos a urgência de viver antes do fim do mundo.
Foi uma hora e quarenta praticamente sem pausas, de pura energia, quase sem diálogo. O grupo atacou de imediato “Boys in the Better Land” (única canção de Dogrel) e foram avançando pelos singles novos e antigos, passando por “Here’s the thing”, “Nabokov” e “Marianne”, “Jackie Down the Line”, “Happy for You”, “Mimesis” (os New Order revisitados) ou “In the modern World”, arrastando-nos a todos para a diversidade presente na sua discografia. Afinal de contas, cinco álbuns na carteira dariam para muitas opções de canções a serem tocadas (mas faltou umazinha, uma qualquer, de A Hero’s Death).
Encadeando umas músicas nas outras, Grian Chatten é um frontman melancólico e embrenhado nos seus próprios pensamentos, como se estivesse a falar sozinho e de repente se lembrasse que tem uma multidão à sua frente. Entre os momentos em que parece apenas que conversa com Deus, estendendo a mão para o céu, e os que olha diretamente para o público e incendeia a plateia com um só gesto, Chatten oscila entre ser quase um gigante mestre de marionetas (neste caso, nós) e uma alma atormentada por todo o peso do mundo.
A meio do concerto tinha dito menos de dez palavras: “Thank you very much” e, primeiro com um keffiyeh (lenço tradicional palestiniano), atirado da plateia, e depois com a bandeira da Palestina aos ombros, lançou um “Free Palestine”, enormemente ovacionado e repetido. E que bom que é ver os nossos “ídolos”, neste mundo tão estranho, do lado certo da História!
Destaque ainda para a faixa de dueto com Rosalía, “Where is Gone?”, em que praticamente toda a plateia cantava sem se enganar do início ao fim (não nos esqueçamos de que tivemos apenas uns parcos cinco dias para ouvir o disco todo, ainda para mais um disco que precisa de tempo). Melhor só se a própria Rosalía estivesse ali, naquele palco que também já pisou, há poucos meses. Não tivemos essa sorte, mas podemos sempre sonhar. Ao último acorde, saíram, preparando o encore, enquanto nós esperávamos com as lanternas dos telemóveis acesas num pequeno espectáculo de luz.
No regresso, antes de se lançar à belíssima “Japan”, falou mais do que até ao momento: uma frase para justificar a demora em voltar ao palco. Atacou logo de seguida com a energia máxima de “I Love You” e “Starburster”, provocando de imediato um moche mesmo atrás de nós. Impossível não saltar com aquela energia contagiante que nos rodeou, ajudada pelas luzes e empurrada pelas guitarras rápidas enquanto cantávamos com toda a força.
No final, entoando “Six Shot Morning” (que abre Dopamine Chamber), Chatten sentou-se, coração atormentado, despedindo-se de nós. Antes de sair, abriu os braços, como que para nos abraçar a todos, acompanhado pelos sintetizadores densos e atmosféricos, quase como se pairasse, e o público com ele. E nós agradecemos a entrega, não arredando pé até que as luzes da sala se acenderam.
Saímos enfeitiçados, quase em transe com a experiência que acabáramos de ter, e com muita dificuldade em colocá-lo em palavras (perdoem). Mas uma coisa é certa: nesta realidade estranha em que vivemos, tantas vezes assustadora e incerta, temos cada vez mais a certeza de que o rock salva.
Fotografias: Gonçalo Nogueira











