you seem pretty sad for a girl so in love é o álbum mais maduro, consistente e ambicioso de Olivia Rodrigo. É extremamente realista no retrato de um namoro jovem e sequenciado como se de um filme se tratasse.
Tendo vinte e dois anos, fui exposto a uma dinastia de televisão infanto-juvenil dourada. Digo-o com plena consciência da minha própria parcialidade, mas, a verdade, é que nenhuma outra geração acompanhou tantos dos seus “heróis” de infância a transitarem para uma carreira musical autónoma.
O Disney Channel, assim como o menos evidente, mas relevante, Nickelodeon, foram, para o bem e para o mal, os pontos de partida de uma série de incontornáveis carreiras musicais, como as de Miley Cyrus, de Justin Timberlake e de Ariana Grande, influenciando, inevitavelmente, o zeitgeist da cultura pop contemporânea.
Com o domínio das plataformas de streaming e a saturação desta “produção em massa” de carreiras fabricadas na televisão, foi inesperado o súbito e monumental sucesso com aclamação crítica de Olivia Rodrigo e de Sour, em 2021.
A pressão de um dos mais bem-sucedidos inícios de carreira da história da música, aos 17 anos, não abalou, contudo, o foco da artista, que veio a superar-se a cada lançamento. A narrativa de you seem pretty sad for a girl so in love retrata o ciclo da vida de um relacionamento de Olivia, desde o delírio e a paixão, até às dúvidas, inseguranças e eventual afastamento. De música para música, vemo-nos a progredir na história e acompanhamos o amadurecimento da cantora em tempo real. Musicalmente, vive entre pop-rock intoxicante e rock alternativo melancólico, muito influenciado pelo new wave e o post-punk dos anos oitenta de bandas como os New Order e os The Cure.
A introdução, “drop dead”, é uma ode à excitação de conhecer uma pessoa nova e à cegueira da paixão imediata. Cheia de cor e com uma performance vocal com falsettos intermitentes, contribui para caracterizar a ingenuidade optimista de alguém que está “nas nuvens”. “stupid song” segue no mesmo tom, mas arrebata-nos com a percussão frenética e o crescendo até ao clímax explosivo. É uma música muito característica daquilo que Olivia Rodrigo e Dan Nigro fazem melhor, juntos.
A partir da terceira faixa, começam a notar-se pormenores de fragilidade e de incerteza nas letras, ainda, maioritariamente optimistas. Nomeadamente o “amor de perdição” de “honeybee”, a dependência demonstrada em “maggots for brains” e o ego na elétrica “my way”.
A sétima música do álbum representa o meio, não só na listagem, mas também da narrativa. “purple” é marcada pela indecisão. A indecisão no coração de Olivia, a faca de dois gumes da relação e a ambivalência do estado mental da artista. Infelizmente, é, também, indecisa sonicamente, não se desenvolve e acaba por não ter uma progressão tão memorável quanto o resto do LP.
É a partir de “the cure” que a dúvida começa a transformar-se em certeza. Esta montanha-russa começa com uma guitarra tensa, que acompanha a ansiedade do sussurro de confissão, e evolui para um primeiro refrão em que Olivia reconhece que não é saudável nem feliz: “my head is full of poison and my heart is full of doubt”. Surgem, depois, o pós-refrão e a ponte, como uma epifania que atinge o clímax catártico no último refrão e explode no instrumental e na voz emotiva.
O segmento seguinte descreve o processo da batalha de Olivia até ao final do relacionamento, que acontece em “less”. É uma balada avassaladora e cuja brilhante escrita, assim como o fantasmagórico piano, evocam uma emoção aguda.
O ciclo de vida encerra-se com a irónica “expectations”, que representa o falacioso excesso de confiança pós-relacionamento, e a crua “cigarette smoke”, em que Olivia faz, finalmente, o luto e aceita que o fim da relação é a decisão acertada.
you seem pretty sad for a girl so in love é o álbum mais maduro, consistente e ambicioso de Olivia Rodrigo. É extremamente realista no retrato de um namoro jovem e sequenciado como se de um filme se tratasse. Não descarta a vulnerabilidade nem a angústia adolescente dos primeiros projectos, mas constrói muito a partir dessa mesma genuinidade à qual nos foi habituando.