Quando um disco consegue provocar-nos as mesmas sensações em qualquer idade, é porque é um disco de que gostamos mesmo. Sixteen Stone não está bem nessa categoria.
Quando me propus escrever sobre este disco pensei que o conseguiria fazer sem o ouvir. Ouvi-o tantas, mas tantas vezes, em adolescente que pensei que ainda o sabia de cor. Mas reconsiderei, e ainda bem porque, ao ver a lista de canções, percebi que não me lembrava assim tão bem de todas (será da idade?) e então lá fui eu fazer uma viagem pela estrada da memória que, sinceramente, é algo que não me tem apetecido fazer.
Ouvir um disco só por ouvir é muito diferente de ouvi-lo com o propósito de escrever sobre ele. Tal como é ouvir um disco aos 14 anos e depois aos 46 – nem sempre nos provoca as mesmas sensações. Aliás, defendo que, quando um disco consegue provocar-nos as mesmas sensações em qualquer idade é porque é um disco de que gostamos mesmo. Mas Sixteen Stone não está bem nessa categoria.
Só algumas canções – poucas – é que conseguiram provocar essa sensação. “Everything is Zen” já não me deu vontade de começar a cantar e a saltar e também já não me enterneci a pensar em amores perdidos quando ouvi a hiper badalada “Glycerine”. Já “Little Things” fez-me abanar na cadeira e cantar alto e confirma-se que é, e será sempre, a minha preferida deste álbum e a minha preferida dos Bush.
“Machinehead”, que adorava, também perdeu o mojo, mas “Body” e “Comedown” pareceram-me muito mais interessantes agora. Já “Testosterone, “Monkey” e “Alien” achei-as agora totalmente dispensáveis e a “X-Girlfriend”, que fecha o álbum, só vale por ser inusitada. São 46 segundos de pseudo hardcore, ou seja, não têm nada a ver com a sonoridade do resto do disco e da banda.
É que os Bush estão a léguas do hardcore. Para quem não conhece, são uma banda inglesa que se deu a conhecer ao mundo em 1994, com este Sixteen Stone e que foram, desde logo, catalogados como pós-grunge. Confesso que, em termos de sonoridade, nem sei bem o que é o pós-grunge. Para mim, os Bush encaixam na enorme categoria que é o rock alternativo. Sim, vão beber à fonte do grunge – afinal estávamos em 1994 – mas falta-lhes a sujidade, a crueza, o despojo. Aliás, alguns críticos acham o álbum demasiado produzido.
Eu acho que era esse o objetivo. Que quiseram fazer bonito e limpo quase como um álbum pop e conseguiram-no porque a maior parte das canções tem um refrão orelhudo e uma melodia fácil de acompanhar. Isto, mais a postura e aparência do vocalista Gavin Rossdale – muito apreciada e falada na altura – foi o suficiente para o sucesso.
Não foi, contudo, duradouro. O segundo álbum da banda ainda teve algum sucesso, mas depois tudo acalmou, o que também pode ter a ver com o facto de já estarmos em 1999 e o pós-grunge começava a perder o interesse.
Seja como for, Sixteen Stone é um dos álbuns mais bem recebidos dessa chamada fase pós-grunge ou, se não quisermos usar rótulos, um dos mais bem recebidos da segunda metade dos anos 1990. Prefiro dizê-lo assim, porque entendo que há um antes e um depois da morte de Kurt Cobain em 1994, e porque, ao ouvi-los agora aos 46 anos, percebo que os Bush não são brilhantes e que Sixteen Stone não é um álbum extraordinário. É apenas um bom registo de um breve e específico período da história da música.