Nem tudo se perde, do primeiro para este segundo álbum, mas muito se transforma nos The Clockworks.
Como é que se descobre uma banda?
Às vezes estando à procura de uma música de outra banda.
Certamente têm nomes semelhantes…
Começam ambas por ‘C’…?
É assim que, em 2026, se “tropeça” nos The Clockworks, banda irlandesa que se apresentou ao mundo em 2019, com “Bill and Pills”, o primeiro de uma mão cheia de singles que lançariam até ao EP homónimo, em 2022. O ano seguinte é de Exit Strategy, álbum produzido Bernard Butler (esse mesmo, cofundador dos Suede com Brett Anderson) e apresentado em Lisboa, em 2024. Foram, contudo, precisos dois anos e baralhação numa pesquisa para nos cruzarmos com The Entertainment (e, obviamente, ouvir tudo para trás).
Nem tudo se perde, do primeiro para este segundo álbum, mas muito se transforma. Há uma influência pós-punk e cinematográfica – que se reconhece, desde logo, na imagem de capa (os quatro elementos na banda no meio da plateia da icónica capa da LIFE) e no nome de algumas músicas – que têm continuidade. Aparece uma sonoridade um pouco mais rock, pop, onde os sintetizadores também marcam presença. Já o imediatismo e explosividade – coerentes com “quatros moços a fazerem barulho numa sala” (dito pelos próprios) – dão lugar à observação mais contundente de uma sociedade, ao questionamento e a uma maior introspecção.
“How to Exist”, primeiro tema de The Entertainment, parte precisamente desse lugar de crise, de dúvida, da tensão latente entre um optimismo oco e uma inquietação profunda. Um ritmo nervoso e contido acompanha a voz de James McGregor, que chega a ser ofegante, mais exalada que cantada (por vezes quase imperceptível), até ao fim abrupto com “I’m looking for something to believe in”.
A viagem, essa procura, começa aqui. Ao longo do álbum, as letras de McGregor falam-nos da vida como constante encenação e dos conflitos internos que daí advêm, as desilusões e o vazio. Uma encenação do que somos, de como nos apresentamos ao mundo, das nossas ligações e relações, pelo que os outros esperam de nós, para sermos aceites e amados. A vida tem de ser espectacular e nós temos de ser belos e bem-sucedidos, na vida social, na carreira e nas relações. A questão central é quanto isso nos custa, do quanto abdicamos da nossa identidade, autenticidade, valores, para sermos vistos, aceites e amados, numa vida moderna em que representamos cada vez mais e somos cada vez menos. No final das 12 canções, terá encontrado algo em que acreditar?
“Best Days”, tema mais melodioso, percorre uma relação condenada ao fracasso, o sentimento de vazio e a autoilusão, assenta num refrão feito de ironia. A crítica a uma cultura de aparências, de padrões irrealistas de perfeição, de espectacularização consome canções como “La Dolce Vita”, “Well Well Wellness” ou “Magnificent Seven”, este um dos temas fortes de The Entertainment (e candidato a passar a ser o meu despertador :D).
Destaque para “The Double e “True Romance”, dois dos momentos mais intimistas do álbum, com McGregor, num registo de vulnerabilidade, a expiar os demónios internos, a desordem interior; ambos terminam em crescendo de intensidade, primeiro uma descarga de emoções e, depois, como prenúncio de catarse.
“The Entertainment” encerra esta viagem tensa, sombria, introspectiva, num tom despido e cru. Gravada ao vivo, revisita a procura da identidade e sentido da vida, as ligações trocadas por estímulos, o amor que se repete sem significado. Em nome do entretenimento.
Hi my name is / The Entertainment / Come right this way / And need I mention / My intentions? /Let’s save the essay / All I need is your attention / I love you I love you I love you /I love you I love you I love you
Texto de Marta Reis