Um lindíssimo disco de música clássica de câmara, pelas mãos de metade do duo francês Air.
Há dois anos, JB Dunckel (metade do magnífico duo francês Air) lançou o seu primeiro disco enquanto pianista a solo. Chamou-lhe Paranormal Musicality, num registo muito livre e de quase improviso ao piano. Dois anos depois, aquele exercício não lhe saía da cabeça, e decidiu revisitar esses temas num formato de quinteto de cordas.
O resultado é Paranormal Music Chamber, que pega nas mesmas estruturas e linhas melódicas mas as transpõe para uma nova linguagem. Aquilo que surpreende e mais agrada é que, sendo o ponto de partida o mesmo, a mudança do meio transformou quase radicalmente as músicas, ou pelo menos a experiência do ouvinte.
Dunckel juntou-se ao compositor e pianista Harry Allouche para o desenho destes arranjos, e recrutou para a tarefa músicos da Orquestra da Ópera Nacional de Paris. E usou uma metáfora muito feliz para descrever este trabalho: as melodias originais florescem, agora, como flores, ganhando cores e uma vida nova e mais exuberante.
O disco-mãe era muito bom, sem dúvida, mas aqui os temas ganham toda uma nova dimensão. Se em Paranormal Musicality o sentimento mais forte era o de alguma solidão, a utilização de um quinteto de cordas (e flauta, aqui e ali) traz um tom de tristeza épica ao trabalho, mostrando a plasticidade da música: as coordenadas iniciais podem ser as mesmas, mas o caminho e o destino podem ser muito diferentes.
Paranormal Music Chamber é um dos discos mais bonitos e elegantes que ouvimos este ano, um bálsamo de linguagem de música clássica de câmara que nos refugia destes dias sombrios que vivemos e de toda a azáfama algorítmica que nos entretém e agride diariamente.
Só temos pena de Dunckel não ter juntado o seu lindíssimo piano a este quinteto de cordas. Aí sim, teríamos a junção total e, eventualmente, o melhor de dois mundos.