Regressar a Brian Eno é uma obrigação, e voltar aos tempos em que fazia canções é sempre muito prazeroso. Before and After Science prova exatamente o que dizemos.
Brian Eno é muito cá de casa. Em todas as suas vertentes. Dele, nada nos escapa. As nossas mãos esfregam-se sempre que há disco novo no horizonte. No entanto, não é sobre qualquer álbum novo, o motivo destas linhas. Antes pelo contrário. Fomos recuar no tempo algumas décadas, apanhando o músico nos finais dos anos setenta do passado século, aquando do seu quinto álbum em nome próprio. Estávamos, então, no ano de 1977, quando dezembro viu sair Before and After Science, trabalho que contou com convidados de renome, como Jaki Liebezeit, Robert Fripp, Phil Manzanera, Hans-Joachim Roedelius, Dieter Moebius e Phil Collins, apenas para não nos alongarmos mais que a meia dúzia. Assim, em quase quarenta minutos de canções, Brian Eno faria aquele que, por muitos anos, seria o seu derradeiro álbum pop-rock, embora com alguma (muito pouca, na verdade) dose de experimentalismo sónico. Depois de passagens por Discreet Music e Another Green World (ambos de 1975), álbuns em que o formato canção foi, em grande parte, deixado para trás, Brian Eno assinaria o seu adeus a essa usual maneira de fazer música, passando a levar muito a sério o seu lado ambiental, cinematográfico e experimental, embora com uma ou outra fuga para terrenos mais comuns, digamos assim.
Before and After Science não é um álbum transgressor. Não é esse o seu propósito. Aliás, algumas das mais notáveis canções que criou, estão por aqui, pelo lote das dez que compõem este trabalho. Talvez os melhores exemplos possam ser “Here He Comes” e “By This River”, canções que só não serão eternas se o mundo vier a ser (ainda mais) afetado por uma inóspita e inesperada surdez coletiva, incapaz, portanto, de encontrar riqueza em pérolas como as agora mencionadas. Enquanto “Here He Comes” é uma clássica canção, com partes bem detalhadas e com aquele belíssimo refrão que apetece repetir até ao fim dos dias (“Here he comes / Here he comes”), já para não falar do notável intermédio instrumental que divide em duas metades o tema, o tema “By This River” está umbilicalmente ligado aos maravilhosos sons dos génios alemães por detrás das bandas Cluster e Harmonia. É incrível como a música pode ser, por vezes, mais alma do que ritmo, ainda mais sonho do que melodia, mais metafísica do que corpórea.
É claro que Before and After Science não se esgota nesses dois momentos. Outros há que lhes fazem a melhor das companhias, como serão, pelo menos para nós, os casos de “No One Receiving” ou a muito particular e distinta “Julie With…”. Curiosamente, o início desta última, assim como “Through Hollow Lands”, tema dedicado ao seu amigo e parceiro Harold Budd, e “Spider and I” parecem ser já guinadas definitivas de volante para espaços que Brian Eno começaria a habitar em quase permanência, onde as vozes e os cantos cederiam lugar às torrentes instrumentais dos seguintes Ambient 1: Music For Airports e Music For Films, ambos de 1978, isto para referir apenas os álbuns que se seguiram a Before and After Science.
Foi por sugestão de um parceiro altamontiano que voltámos a este disco. Em boa hora dissemos logo que sim, uma vez que regressar a momentos de grande qualidade não se negam por nada deste mundo. Curiosamente, e referindo-nos agora apenas à capa de Before and After Science, outra das nossas amizades muito caseiras, no ano de 2003, lançou um curioso álbum, intitulado Das Capital, em que revistava temas antigos de bandas que tinha liderado, assim como acrescentava uma ou outra composições novas. Falamos de Luke Haines, na altura já gravando em nome próprio, depois de ter dado corpo aos The Auteurs e Baader Meinhof. A razão desta menção, retomando a ideia de há pouco, é a capa de ambos os discos, que de tão idênticas quase parece gémeas. Talvez Luke Haines quisesse fazer, na altura, o que agora fazemos nós: homenagear um génio que nos faz gostar tanto de música.