A festa, que aconteceu na noite do aniversário de cinco anos de banda, tinha como objetivo apresentar o seu novo disco Trópico Paranóia, que demorou dois anos a ser preparado.
“Não queríamos fazer propriamente nada, só queríamos fazer”, disse, a uma dada altura do concerto, o guitarrista Sebastião Varela. Olhei para o meu irmão, rimo-nos e por entre os aplausos de um público bastante satisfeito, gritou-me “ele acabou de descrever a sua música numa só frase”.
Depois de passar inexplicavelmente três meses sem assistir música ao vivo, o meu coração pulou ao ouvir o primeiro acorde da guitarra portuguesa de Gaspar Varela. Mas a alegria que surgiu em mim, rapidamente se evaporou. Ver Expresso Transatlântico foi como ler um livro que nunca propriamente passa da introdução. Lemos a primeira frase, que geralmente nos entusiasma, as personagens e os espaços começam a ser-nos introduzidos, achamos que esta é só uma parte mais aborrecida e que, em breve, a história irá ficar entusiasmante e, por isso, esperamos e bocejamos e esperamos, mas não passa daí. Nunca passa daí e todos os momentos que passámos a lê-lo foram um autêntico bocejo.
Esta festa, que aconteceu na noite do aniversário de cinco anos de banda, tinha como objetivo apresentar o seu novo disco Trópico Paranóia, que demorou dois anos a ser preparado. E como prometido, o álbum foi tocado quase na íntegra, juntamente com algumas canções mais antigas, como “Bombália”, “Azul Celeste” e “Beco da Malha”. Nestas duas horas, fomos também presenteados com Gaspar, na sua guitarra portuguesa, a interpretar com grande mestria o “Movimento Perpétuo” de Carlos Paredes.
Em 2023, numa entrevista à revista digital Rimas e Batidas, a banda afirmou que “é fixe termos um álbum e depois daqui a um ano ou dois termos um álbum diferente, porque tivemos acesso a outras coisas”. Trópico Paranóia prometia marcar uma nova etapa na sonoridade do conjunto lisboeta, prometia mostrar mais amadurecimento. Três anos depois do lançamento do seu primeiro álbum, pergunto-me: Onde se mostra o acesso a novas coisas? Onde está a nova etapa, o amadurecimento, o crescimento? Porque no concerto onde estive, ouvir aquelas novas canções foi só ficar no mesmo lugar. Não é melhor nem pior, é simplesmente igual.
No rio estagnado que existia em mim, o público destoava. Apesar da timidez da capital, tanto os adolescentes como os adultos (excetuando o senhor que teimava em verificar de dois em dois minutos o site d’A Bola) vibravam com o que acontecia em palco. Então, quando observava no telemóvel à minha frente que o Benfica estava a ganhar 2-1 ao Arouca, interrogava-me: por que é que não estou a conseguir desfrutar da festa? Exatamente pelo que Sebastião revelou: a banda não queria propriamente fazer alguma coisa, só queriam fazê-la. E depois de feita, depois de gritarem para o microfone que “Nós existirmos é a resistência”, que “Temos de sair à rua, revoltarmo-nos”, que “está cada vez mais insuportável para os jovens conseguirem pagar a renda de uma casa”, só sobrou um vazio.
Zeca Afonso, um dia, disse: “Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for”. José Afonso lutou a sua vida toda contra o regime autoritário que se vivia em Portugal. Expresso Transatlântico organizam um concerto onde nos é cobrada a entrada por quinze euros, seis por uma cerveja e outros três por duas horas de estacionamento. Eles próprios afirmam, por outras palavras, que as suas canções não têm um propósito concreto. Onde está a resistência, a revolta, a preocupação pelos jovens que só conseguem sair de casa dos pais aos 30 anos? O que estão eles a fazer para lutar contra a opressão?
“É engraçado como dia após dia nada muda, mas quando olhamos para trás tudo é diferente.” Leio esta citação do escritor irlandês C.S Lewis e penso como os meus gostos estão em constante evolução. Quando descobri Expresso Transatlântico, fez-se revolução em mim. Fiquei fascinada com a corrente artística que a banda adotou em unir a tradição portuguesa com sonoridades mais contemporâneas. No sábado que passou, senti que precisava de mais. A guitarra portuguesa misturada com rock já não saciava a minha sede. Sede de descobrir mais, de crescer mais e mais e mais até ao dia em que volte a pensar: “Era tudo tão diferente e eu sabia tão pouco”.
Fotografias de Inês Silva
















