Ouvir filmes pode ser um bom e interessante desafio. Quando se trata de clássicos do cinema, o prazer poderá ser bastante prazeroso. Viva Alfred Matteo Monico Hitchcock!
Para os tempos que vão, tão cheios e conturbados, uma proposta minimalista pode muito bem ser o ingrediente mais adequado à rotina dos nossos dias. São muitas e constantes as imagens agressivas e desumanas, muitos os horrores da existência ao nosso redor, que nos entram pelos olhos em ecrãs, jornais, revistas, notícias que parecem anunciar o mais moderno e temido dos apocalipses. Aprender a resistir a tudo isto é duro e talvez possa gerar sentimentos de culpa que, na verdade, até talvez nos pertençam. Ignorar o que existe é um gesto ignóbil de cobardia, a que não nos entregamos. Por isso, e porque as mãos estão atadas para outras formas de pacificação, colocar a rodar um disco pode ser um escape, um ben-u-ron em forma de som que mitiga e atenua a dor. Sofrer com os outros é também uma forma de abraçar a mesma dor. Se tudo fosse apenas um filme, o mundo seria um lugar melhor, mas a realidade, por vezes, supera a ficção.
Façamos, então, tocar o piano de Matteo Monico, que nos evoca filmes melhores do que os que, na verdade, não são outra coisa a não ser a mais pura das realidades. Mas nós não queremos a coisa pela medida menor. Há que convidar o mestre ao palco do som, dar-lhe a voz das teclas negras e brancas de um piano, levantando, com e através delas, o pano da memória e da imaginação. E assim, é Alfred Hitchcock quem nos visita, preenchendo-nos o imaginário de coisas tão boas, que se tornaram clássicas. Ao menos, nele tudo não passa de ilusão e fantasia.
Em Alfred Hitchcock: A Portrait in Piano, álbum marcadamente clássico, saído nos início de outubro do ano findo, tudo parece feito para nos espevitar a memória. Tudo parece unir-se para que, de novo, vivamos momentos da mais pura inquietação, instantes de suspense, imagens de uma realidade inventada que ganharam vida em nós. Quem não se lembra de A Corda, de A Janela Indiscreta, de Psycho, Vertigo ou Marnie? No entanto, talvez não se recordem das bandas sonoras amplamente orquestradas que faziam parte desses tão icónicos momentos de cinema. Pois, talvez seja normal, só que com esta edição de Alfred Hitchcock: A Portrait in Piano (infelizmente só existente em CD), podemos reverter tudo isso, carregando no play dos nossos aparelhos domésticos para que, de novo, a claquete bata e a fantasia recomece, agora sem imagens, apenas reconstruídas ao som do piano.
Não é muito normal partilharmos um disco tão clássico como este no Altamont. Talvez seja, até, o primeiro. Sem que isso nos preocupe, avançamos com esta tentadora proposta, que agradará, é essa a nossa convicção, a cinéfilos e ainda aos amantes de música. Música sem espalhafatos, despida até ao osso do som, da maior e mais imaculada pureza. O que aqui se tenta verter para música, digamos assim, são os instantes mágicos dos filmes e das séries de TV que o bom gigante Hitchcock produziu durante várias décadas. O prazer de rever, ouvindo, essas obras, ou partes delas, instantes inesquecíveis, é o que o italiano Matteo Monico nos serve como refeição única, sem entradas nem sobremesas.
É preciso amar os clássicos, não esquecer nunca que é com muitos deles que crescemos e nos fazemos melhores, até porque, como dizia Calvino, são obras que nunca terminam de dizer o que têm para dizer. Mais que não seja, se o prazer da música ficar aquém do esperado, ouvir este belíssimo disco servirá sempre para que descubramos que toda e qualquer releitura é uma descoberta de nós próprios. É isso que devemos a Matteo Monico, e olhem que não é tão pouco quanto poderá parecer à primeira vista. Ou melhor, se assim preferirem, à primeira audição.