No seu primeiro álbum, Femme Falafel expôs os seus dói-dóis através de analogias e trocadilhos inesperados, batidas house loucas, sintetizadores idiossincráticos e uma boa dose de ironia.
Femme Falafel, alter ego artístico de Raquel Pimpão, foi, durante muito tempo, uma one-hit wonder à boleia do estupendo single “Depressão”, lançado em dezembro de 2022. Neste, ouvimos pela primeira vez as letras trágico-cómicas e brutalmente honestas de Femme Falafel e rimo-nos enquanto não resistíamos a dançar ao som das deliciosas teclas italo-house que acompanham a extensa lista de possíveis remédios para a depressão. O single rendeu-lhe atenção suficiente para passar os dois anos seguintes a tocar bastante ao vivo, o que nos permitiu perceber que aquela não era a única boa canção que Raquel Pimpão tinha na manga. Ainda assim, os lançamentos escassearam até ao fim de 2024, quando “Romance Feudal” veio sugerir que o lançamento do mui desejado disco de estreia estaria para breve. Dói-Dói Proibido, lançado em outubro de 2025, deu-nos finalmente as versões definitivas daquelas músicas que soavam tão bem ao vivo e veio arrasar de uma vez por todas a hipótese de que Femme Falafel seria um fenómeno passageiro.
Nas dez canções que compõem o álbum, Femme Falafel dá-nos acesso privilegiado ao seu monólogo interior e deixa-nos acompanhá-la enquanto lida com as dores de ser uma mulher a tentar sobreviver ao século XXI. Se “Depressão” fala de saúde mental, o resto do disco não lhe fica atrás em termos de temas que apoquentam qualquer jovem minimamente sensível: “Camada de Ozone” aborda a ansiedade climática, “Livre-arbítrio” fala da responsabilidade de tomar decisões difíceis e “Electrocardiodrama” é sobre os malefícios das paixões assolapadas. O que torna este álbum cativante é, no entanto, o tom festivo com que estes temas pesados são abordados. Ao invés de lamentos, Femme Falafel purga os seus males recorrendo à ironia, a trocadilhos no mínimo inesperados, e a referências que só quem nasceu entre 1995 e 2001 e passa muito tempo online vai perceber. Tudo isto perfeitamente encaixado em versos rápidos e intrincados que entrega quase como se fossem um fluxo de consciência sem grandes filtros. A música é irresistível e casa na perfeição com as incoerências da sua autora. Sendo um disco formal na sua matriz jazz (formação base de Raquel Pimpão), é também louco nas batidas house e nos sintetizadores idiossincráticos.
Apesar da variedade de temas que encontramos em “Dói-Dói Proibido”, as relações, nas suas mais diversas vertentes são, claro está, assunto dominante, não fosse este um disco pop. Se no matriarcado medieval descrito em “Romance Feudal” é Femme Falafel quem controla aquela dinâmica de relação inesperada entre “suserana” e “servo da gleba”, em “Electrocardiodrama” é o “homem com brinco” que usa todo o seu poder contra ela. Em “Camada do Ozone” ouvimos a artista dizer que quando se apaixona nunca lê bem as contraindicações (faz lembrar aquele verso de Minta & The Brook Trout, “I fall in love every two seconds, it’s kind of embarassing”), o que a deixa exposta a fenómenos dolorosos como a friend-zone, ou a chamada “cultura de hook-up”. Já “Rio”, provavelmente a melhor canção do disco, tem uma Femme Falafel em paz com a ideia de que “mais vale só do que mal-acompanhada”.
Dói-Dói Proibido é divertidíssimo do princípio ao fim. Faz-nos rir, dançar, bater o pé, rir outra vez e pensar “é mesmo isto” enquanto dançamos mais um bocadinho. A leveza com que Raquel Pimpão expõe as suas dores, que são as dores de todos nós, é refrescante e deve dar esperança por ser esta a melhor forma de sobreviver aos “dói-dóis” da vida. Foi um parto demorado, sim, mas sem dúvida que valeu a pena a espera.
Um dos álbuns do ano <3