Num concerto anunciado com quase um ano de antecedência, os Silence 4 meteram cerca de 15 mil pessoas numa máquina do tempo, vivendo durante duas horas em 1998, ali bem perto do caótico ultimo dia da Expo98.
Foi uma espécie de ritual colectivo — um encontro com fragmentos de nós próprios que achávamos guardados em gavetas empoeiradas, que evitámos abrir durante anos. Lá dentro estavam várias canções que envelheceram, sim, inquestionavelmente, mas que ficaram marcadas na memória de uma geração que acorreu ao MEO Arena (e antes ao Super Bock Arena, no Porto, em quatro noites esgotadas) para rever o quarteto de Leiria, e com eles celebrar o seu 30º aniversário.
Foi um concerto que se não se preocupou em reimaginar os clássicos, nada de efeitos pirotécnicos que cegam em vez de iluminarem. Houve canções tocadas como velhos amigos reencontrados. Houve silêncio onde ele fazia falta, imperfeições assumidas, vozes que carregam anos — it is what it is. David Fonseca não tentou ser o que já não é; foi exatamente quem sempre foi, entertainer para além de músico. Sendo que o público não estava ali para ser entretido, mas sim para lembrar. Para cantar baixinho versos que fizeram companhia em quartos escuros, viagens de carro sem destino, despedidas mal resolvidas. Para perceber que aquelas músicas continuam a ser abrigo num mundo que acelera sem olhar para trás. Só é pena que as pessoas só vivam a música do seu passado, esquecendo que há novas bandas a aparecer, novas memórias a serem criadas a cada esquina.
Mas se a noite teve uma nota dissonante, foi no encore. Depois de um alinhamento que percorreu os seus dois álbuns Silence Becomes It (1998) e Only Pain Is Real (2000) os Silence 4 regressaram ao palco para repetir temas já tocados, devolvendo ao público “Borrow” e “My Friends” pela segunda vez. Foi um gesto que para uns soou a carinho, para outros a falta de imaginação. Deram ao povo o que o povo quis, mas torcemos o nariz.
Houve lágrimas? Sim. Houve sorrisos? Claro. E aquele encore repetido? Bem… às vezes a nostalgia tropeça nas próprias recordações. Mas talvez isso também faça parte — das falhas, das expectativas e do modo como escolhemos manter vivo aquilo que nos moldou.
Fotografias: Filipe Kido























