O que se escuta em LOVED é uma banda madura, mais confiante na sua linguagem e disposta a conversar com o público num registo mais íntimo. Ao terceiro acto, os Parcels amadurecem a festa.
“Oh, to be loved, to be loved…”
Assim entramos no terceiro longa-duração dos Parcels. E há lá melhor sentimento que este — esse estado de espírito em movimento constante, entre o dar e o receber, o estar e o ser, a procura e a descoberta, que nos deixa com borboletas na barriga. O piano e o baixo que começam por atravessar-nos o corpo, enquanto as harmonizações (perfeitas) de Jules, Louie, Patrick, Noah e Anatole nos fazem sorrir e acreditar. E dançar.
No Primavera Sound do Porto deste ano dançámos. Muito! Poucos artistas arrastaram tantos festivaleiros para o palco secundário, menos ainda deixaram o público tão visivelmente feliz. Ao vivo, o quinteto australiano são sinónimo de comunhão e nós comungámos, pulando que nem cangurus. Para além de recebermos de braços no ar os novos singles “Ifyoucall”, “Safeandsound” e “Yougotmefeeling”, derretemos como bons lusitanos quando MARO subiu ao palco para cantar, a seis vozes, a sua versão de “Leaveyourlove”. A canção, que acabou por dar igualmente origem a um álbum colaborativo de versões em várias línguas, encontrou na versão de MARO a sua forma mais doce (como ela). Era o lugar perfeito para estreá-la ao vivo e deixar-nos sonhar (contigo) sobre qualquer coisa boa. E que bonito foi sonharmos ali acordados.
O processo criativo de LOVED começou após um hiato de seis meses em 2023 – a primeira pausa desde a formação dos Parcels em 2014. Diferente da imersão em estúdio único que marcou Day/Night (2021), LOVED foi construído a partir de composições individuais, gravadas depois em localizações variadas como Berlim, Byron Bay, Sydney, Oaxaca e Cidade do México, procurando transformar atmosferas distintas numa mesma narrativa musical. Uma vez em estúdio, perceberam que, apesar das experiências individuais, havia temas e preocupações partilhadas. Sobretudo o amor. E o desamor.
É verdade que o novo LOVED não alcança o impacto revelador ou a ousadia estrutural dos seus antecessores. Em termos sonoros, o disco reforça a vocação da banda em recriar a estética electro-pop-funk dos anos 70 com frescor contemporâneo. Porém, o que se escuta aqui é uma banda madura, mais confiante na sua linguagem e disposta a conversar com o público num registo diferente, mais íntimo. O groove ainda pulsa, mas respira. As harmonias não pressionam, mas acariciam. É festa e é pausa, é corpo e é pensamento, é o abraço que continua mesmo depois da música parar. E é uma pena que não haja mais temas como “Iwanttobeyourlightagain”, tão reveladora daquilo que os Parcels também podem ser. É uma sorte haver pelo menos um. LOVED é a amadurecida forma de sedução dos Parcels.