Sintetizadores poderosos, que marcam o ritmo, linhas de baixo forte e uma intensa inspiração synthpop e post-punk, este disco foi um bálsamo para a alma.
O ano era 2020, estávamos em plena pandemia. Nada era como habitualmente incluindo a forma como ouvíamos música e novos discos.
Esta escriba passava os dias entre reuniões intermináveis no Teams, ginástica nos poucos metros quadrados do escritório com o conforto dos clássicos pop a berrar nos ouvidos, e copos de vinho ou enquanto via uma série no sofá. Havia preocupação, havia tempo ocupado, havia rotinas instaladas para manter a sanidade. Havia, portanto, pouco espaço mental (e de tempo, também, mas sobretudo mental), para ouvir novos discos.
Lembro-me que, nessa altura confusa e da qual guardo pouca memória, apenas dois discos novos verdadeiramente entraram: Grimes, com Miss Anthropocene e este primeiro trabalho de Nation of Language, Introduction, Presence.
A primeira vez que me chegou aos ouvidos fez-me parar, ao contrário de todas as outras bandas ou discos novos que eu estava a ouvir em modo automático e nada ficava. Mas o que era isto, esta sonoridade tão datada, tão Orchestral Manoeuvres in the Dark mas ao mesmo tempo tão fresca, tão familiar, mas também tão interessante, com um toque de inovação dentro daquele conforto dos clássicos do qual eu não queria sair? Synth-pop, new wave, pós-punk mas com um sabor excitante de novidade – sentir um pouco do que sentiu um adolescente dos anos 80 que ouviu tudo isto pela primeira vez.
“Tournament” apaixonou-me imediatamente, uma delicada canção que me fez identificar logo com a letra (‘Cause I’ve been waiting for a long, long time). Não estaríamos, todos, em suspenso, à espera de alguma coisa E que dizer de “Rush&Fever”? Aquele sintetizador ritmado, que vai aumentando de intensidade, a pedir salvação, redenção, a pedir mais, e a certa altura o gritado “I remember when you couldn’t find the time”. Um mimo, um aperto no coração daqueles bons, para nos tirar da anestesia pandémica.
O disco vai prosseguindo, com coerência e diferentes níveis de intensidade. “On Division St” traz-nos um novo sintetizador poderoso, quase a soar a jogo de computador, com efeitos vários, mas que a voz profunda de Ian Devaney faz soar como uma coisa a sério. A fechar “The Wall and I”, uma das minhas faixas preferidas, tão dançável, tão enérgica e, ao mesmo tempo, tão etérea e suave.
Há ecos de OMD, The Human League, Depeche Mode, New Order (em “The Wall and I” a linha de baixo parece exatamente o Peter Hook a tocar, e que bem que soam). Os sintetizadores não são usados apenas para criar textura, são eles próprios parte marcante da canção, dividindo, liderando, mantendo o ritmo, elevando a emoção. E depois as letras, a melancolia, tão apropriada ao torpor pandémico, com a luz também a teimar aparecer.
Este disco, para mim, foi uma revelação e fez-me querer evangelizar todo o Altamont para que ouvissem os Nation of Language. Tive mais ou menos sucesso e consegui outro tão grande aficionado como eu, que escreveu este excelente texto sobre o disco de 2023, Strange Disciple.
Não é um disco inovador, que rompe com tudo o que já se ouviu antes. E isso talvez, aos dias de hoje, possa ser considerado um ponto menos interessante. Para mim, era tudo o que eu precisava naquela altura.