Primavera Sound, finalmente! O rasto rock dos Fontaines D.C. e a pegada pop da Charli “Brat” xcx dominaram a noite do primeiro dia.
O bom filho à casa torna, mesmo que essa curta residência, digamos assim, de três dias, seja a mais de 300 quilómetros de distância do pouso habitual. O Primavera Sound da cidade invicta cruza-se com o Altamont há muitos e bons anos, pelo que em 2025 a história teria de repetir-se. Pela fresca, fizemo-nos à estrada, subindo por esse Portugal acima. O Parque da Cidade, em Matosinhos, esperava por nós. Cartaz equilibrado e para todos os gostos, como sempre deveria ser neste mundo onde a diversidade vai cimentando o seu lugar. Quem “não é da música”, também cabe aqui, nestas elevações verdinhas de terreno, lembrando inocências teletubbianas de outras décadas. Lembram-se? Nós lembramo-nos todos os anos. Lugar perfeito, onde tantas vezes falta o sol sorridente com cara de bebé do antigo programa de tv. A caminho do Porto, a expectativa fervilhava, misto de emoção antecipada e prazer desejado. Here we go again!
A nada efémera Tulipa Ruiz abriu o palco principal com a sua musicalidade típica e a sua voz sobrenatural. Forte apelo à dança, por vezes embrulhada em plásticos, uma noiva pós-moderna do sec. XXII , a brasileira celebrou as mulheres (com “Banho”, por exemplo, dedicada à mítica Elza Soares), recordando depois outro ícone da MPB de outros tempos, Jards Macalé. “Essa medalha de prata foi presente de uma amiga”, não é verdade? Claro que sim. A voz de Tulipa Ruiz lembra a Gal roqueira dos primeiros vinis a solo. O que vale é que ainda há quem cante quem, infelizmente, não canta mais. “Dessa janela” nunca se está “sozinha”. Trio de guitarra, baixo e bateria serviram Tulipa Ruiz perfeitamente. Belo início da edição deste ano do Primavera Sound do Porto. Um sotaque conhecido é sempre um bom amigo.
Momma foi a senhora (e não apenas) que se seguiu. Não há que enganar. Rock indie de guitarras soltas e estridentes. Para se ficar surdo (culpa do som demasiadamente alto e não da banda) não há melhor. Estivemos mesmo junto ao palco, mas tivemos de ir para as trincheiras mais para trás. Os temas são certeiros, por vezes com uma programação eletrónica pelo meio (foi o que nos pareceu, a espaços) dando um pouco de mais espessura às canções, quase todas gingonas. América no seu melhor. Califórnia numa tarde onde o calor foi muito e a chuva uma miragem. Quem diria!!! São Pedro reformou-se e voltou o desejado anticiclone dos Açores. Foi obra tua, Pedro Primo Figueiredo?

Ao mesmo tempo, no palco ao lado, digamos assim, Christian Lee Hutson soava a Simon and Garfunkel – uma voz a parecer duas!!! – e se fecharmos os olhos estamos mesmo perante a famosa ex-dupla de grandes sucessos de décadas idas. Voz, viola acústica e violino. Pena não termos chegado mais cedo para limparmos os ouvidos das boas troubled waters indies do concerto anterior. Bonito e calmo como um final de tarde com quem se gosta
Os Dehd deram um concerto cheio de vitalidade! Bom rock recente, mas de olho no espelho retrovisor. Belas guitarras, poéticas e intensas, melódicas e bem ritmadas. Tocaram temas do mais recente álbum (Poetry) e pareceram, no palco Porto, heróis do filme de Zemeckis, Back to the Future. Ou seja, um pé atrás e outro na frente. É esse o tempo presente da música que fazem. Há por ali algum de My Bloody Valentine (ma non troppo), sobretudo nas guitarras, prevalecendo o gosto de fazer canções mais orelhudas do que a vida em Chicago. Por isso, arriscamos nós, decidiram viajar até ao Novo México para comporem Poetry. O resultado ouvimo-lo ontem, e é bem catita, que é uma expressão que calha bem na escrita ligeira destas linhas. Boa surpresa, estes Dehd. O pouco que lhes conhecíamos, souberam-nos a muito.
Chegou a vez dos Fontaines D.C. e é impressionante (e divertido, até) vislumbrar a quantidade de referências que encontramos nas suas canções. Não só nas canções, mas também na pose e na atitude. Por mais estranho que pareça, nos primeiros instantes de “Romance” – tema de abertura do concerto – poderíamos estar num espetáculo dos Depeche Mode (ali pelos tempos de Construction Time Again), embora com mais guitarras e menos teclas. Mais ainda, a pose de Grian Chatten imita um pouco (por vezes descaradamente) a de Liam Gallagher. Aquele braço atrás das costas não engana ninguém, enquanto se balança para cantar, pois não? Nem a pandeireta lhe falta. Mas enfim, os Fontaines não são apenas isso, evidentemente. São, isso sim e também, uma banda entusiasmante e com uma pica incrível, capaz de unir mares de gente, ao contrário do que fez Moisés com o seu cajado. A referência bíblica acontece pelo facto de no palco estar a bandeira da Palestina. Não é preciso explicar o resto, pois não? E assim, num ápice de tempo, aquele coração gigante em palco poderia ser o coração do mundo, tivesse o mundo coração para bater por todos. Grandes canções como “Jackie Down The Line”, “Televised Mind” e “It’s Amazing to Be Young” (esta última, então!) meteram os primaveris aos saltos, cantando a plenos pulmões. Foi bonita a festa, e só não dizemos “pá”, porque ontem a expressão ideal seria “dude”. Com “Big”, então, até a anémona da rotunda estremeceu. “Big” é a “Song 2” da banda irlandesa. Com “Boys in the Better Land”, outra explosão! Com “I Love You” e “Starbuster”, a noite acabou. Belíssimo concerto, caramba!

O que dizer de Anohni and The Johnsons? A calm before the storm dos Fontaines D.C.? Que já não é “agora” o “pássaro” que foi outrora, quando abriu as asas para a música? Sendo verdade, Anohni é ainda uma voz aprisionada a uma dor profunda, que parece não ter fim, sofrendo com o sofrimento do mundo, mas também com as agruras do seu mundo particular. O romantismo tornado música, desfeito em canções de uma sensibilidade ímpar… Esta poderá ser uma descrição que lhe cola bem aos poros da pele. Ouvir Anohni and The Johnsons é um requiem para todos nós, “cadáveres adiados” em busca de redenção. E sim, se é verdade que o rock salva, a música de Anohni depura e estimula à comunhão, como se todos testemunhássemos (pelo menos uma única vez na vida) que a condição humana é frágil, efémera, residual como as canções que ontem se perderam no ar da noite.
Estávamos quase a despedirmo-nos do primeiro dia do Primavera Sound, quando Charli xcx entrou a toda a pressa (“vroom vroom”) no palco Porto, o principal do recinto. A inglesa que ontem se deu a ver e ouvir (sem banda, tudo previamente gravado, como muito agora se usa) já anda nestas andanças há muito anos, mas só agora, com BRAT, alcançou estatuto verdadeiramente planetário, se assim podemos dizer. E podemos, pelo imenso planeta humano que ontem suspirou a cada verso cantado. Mesmo não sendo a nossa praia, é algo entusiasmante assistir ao reboliço que a inglesa é capaz de provocar em pequenas multidões, como aconteceu ontem. Tudo parece pronto e fabricado para uma aula de Core em que suar, suar muito é equivalente a ser feliz. Alegria medida em transpiração foi o padrão. Isso e muitos gritos e mãos no ar. “Are you fuckin’ ready?”, e o povo gritava que sim em concordância plena. E assim começou com “365” e “360”. A loucura acalmou um pouco com “I Might Say Something Stupid”, balada que faz dos braços das pessoas parecerem ondas indecisas do mar ali tão perto, de um lado para o outro, de um lado para o outro, até uma nova explosão de ruídos, sons e autotune acrescentar fervura no lume mais brando da canção mencionada. Foi assim até ao fim (com uns “obrigado” pelo meio), desfilando ritmos alucinados como se não houvesse amanhã, mas também com alguns instantes de menor desassossego. “Apple” meteu toda a gente a dançar, num desperdício de cerveja a saltar dos copos para os corpos mais próximos. “I fuckin love you, Porto” and so on até ao derradeiro tema. E está feito o retrato do quadro pintado a beats na noite do Parque da Cidade. Muitos dirão “I Love It”, outros preferirão “I Don’t Care”.
Depois disto, uma perninha em The Jesus Lizard e outra em Caribou, notas de rodapé do fim do dia inaugural do Primavera Sound do Porto. Uma completamente roqueira, parecendo haver tiroteio pelo meio das cuspidelas noise punk de David Yow e outra abanando pés, pernas e cintura ao som do som caloroso dos canadianos. E pronto. Voltaremos para o segundo ato em mais ou menos 24 horas.
Fotografias: Inês Silva



































































































