No primeiro disco para uma multinacional, os Mão Morta mudam, mas não como muitos esperariam.
Os Mão Morta sempre desafiaram as normas e as expectativas, flirtando com o sucesso para depois o sabotar e vice-versa. Depois do sucesso de Mutantes s.21 e do seu omnipresente “Budapeste”, foram contratados por Tozé Brito para a BMG. Isto levantou naturalmente algumas dúvidas, sobretudo entre os fiéis da banda bracarense, que não conseguiam perceber o que um bastião do indie estava a fazer num contrato com uma major. É claro que Adolfo rapidamente desmistificou essa ideia e tornou claro que o grupo tinha total autonomia artística, que na verdade era o que mais lhe importava.
Mas uma coisa parecia clara, a pressão era agora outra. Agora que havia não apenas uma grande editora a pagar a conta mas um público bem maior à espera de ouvir o que se seguiria, não seria fácil os rapazes abstraírem-se desse facto e fazerem arte pela arte, sem concessões. E, confirmou-se, os Mão Morta mudaram nesse disco. Só não mudaram como muitos esperavam, ou temiam, que acontecesse.
Face ao seu predecessor, Vénus em Chamas é diferente em várias coisas. Em primeiro lugar, sim, o som é mais polido, menos lo-fi, mesmo depois de Mutantes s.21 já ter representado um salto face ao que vinha de trás. Em segundo lugar, os Mão Morta abrem claramente as asas sonicamente.
Aquilo que muitos esperavam e temiam e que não aconteceu foi uma busca por um som mais comercial, escrever um novo single orelhudo, que parissem um novo “Budapeste”. Nada disso. Os Mão Morta quiseram, deliberadamente, experimentar, crescer, fazer coisas novas. É aliás, curiosa, uma frase de Adolfo Luxúria Canibal, proferida na altura: “em muitas músicas, nós pensámos: não, não pode ser assim, esta guitarra ainda é muito Mão Morta, temos que modificar ainda mais. Durante estes dois meses de gravação, nós quase fizemos uma guerra aos Mão Morta“. O caminho era em frente.
Se o trabalho anterior era claramente conceptual, aqui também há uma ideia geral, mas mais difusa. O tema central é o sexo, algo que sempre esteve presente no imaginário e nas letras do grupo mas nunca nesta vertente sensual e lúdica. Os nomes das canções, aliás, quase poderiam representar nomes de filmes pornográficos, ou de canções dos grandes Ena Pá 2000: de “Anjos marotos” a “Massagens suaves”, passando por “Festim Carnal”, há de tudo neste verdadeiro bacanal sonoro.
E esse é o ponto definidor deste disco, esse sentimento de mistura orgíaca, de experimentalismo, mas também de sensualidade perigosa. Temos a soul branca de “Negra flor”; a beleza clássica pop de “Velocidade escaldante”; o rock em “Anjos marotos”, “Festim carnal”, “Desejos mecânicos” ou “”Fogo selvagem”; exercícios experimentais como “Orgia Scherzo em Fá” ou “Champanhe quente & caviar”; os temas mais lentos, espartanos e bonitos de “Hotel Paradis” ou a plácida “Massagens suaves”; e até a house music (!) da frenética “Cães de crómio”. O encerramento, com a faixa-título, dá-nos uns Mão Morta mais épicos, mais próximos do pós-rock que viriam a explorar devidamente mais tarde, com grande eficácia.
Vénus em chamas é, assim, um disco maduro, sim, algo desequilibrado, também, eventualmente com uma ou duas faixas a mais, mas que continua a ouvir-se, tanto tempo depois, com gosto e prazer. E que mostrou, para quem tivesse dúvidas, duas coisas: que os Mão Morta não se reduziam a um single ou a um momento de sorte e que a sua veia criativa se recusava a amansar-se perante qualquer exigência ou ilusão de desafogo comercial.