Da noite, costuma fazer-se dia, para se voltar, uma vez mais, à escuridão. Essa parece ser a nova casa dos Saint Etienne. E o brilho desse manto noturno, acreditem, tem um fulgor irresistível.
Andam há anos a tentar fazer fazer a canção pop perfeita, mas apesar do apreço que lhes temos, nunca terão conseguido, na nossa opinião, o intento desejado. Havendo, como sempre há, beleza em todas essas tentativas, mesmo que nem sempre conseguidas de forma exemplar, continuamos a dar o crédito merecido ao pop bem feito dos Saint Etienne, banda de nome equívoco, uma vez que são tão londrinos como o Big Ben, embora possam parecer crer terem nascido na pátria da Torre Eiffel. Até nisso encontramos alguma satisfação ínvia, digamos assim.
Mas vamos ao que interessa. No final do ano transato, a banda britânica deu à luz a noite. Ou seja, e melhor dizendo, The Night. O álbum é, parece-nos bem, uma espécie de prolongamento do disco anterior, o já muito interessante I’ve Been Trying To Tell You (2021), embora mais radical na proposta de uma música onde pequenos instantes de calma e quase silêncio ganham peso e forma melódicas de inusitada beleza, povoadas (as canções) pela voz fresca de Sarah Cracknell, o que não impede, antes realça, pelo contraste, o som denso, soturno e creepy de The Night. Um filme musicado em que as imagens somos nós que as construímos, à medida que vamos ouvindo os catorze temas do álbum.
Ao décimo primeiro trabalho de originais, se a memória nos serve bem, os Saint Etienne já não parecem portadores de uma eterna juventude que lhes estava colada ao corpo e ao som. A idade chega sempre, até aos mais intrépidos Peter Pans. E ficam-lhes muito bem, as rugas do amadurecimento reveladas nestas composições. E por isso, agora já podemos, pela madrugada dentro, colocar a tocar um disco destes londrinos quando, sozinhos numa qualquer noite caseira de inverno, buscamos um copo de whisky no aconchego de um sofá, no lusco-fusco de luzes tremeluzentes. Ora experimentem ouvir “Settle In”, “Half Light”, “Through The Glass” de seguida, e vejam lá se não se passa melhor qualquer inverno do nosso descontentamento. “Nightingale” parece uma estrela cadente que se espreguiça na escuridão do som da sala, enquanto o gelo se afoga no álcool da velha Albion. Que pena não ter chegado mais cedo, esta noite tardia de 2024, pois viria a tempo de luzir nos discos das nossas preferências anuais, coisa que não chegou a acontecer.
Há pouco, fizemos referência à idade adulta, e ao envelhecimento – por extensão – mas também ao seu avesso, ao início desse processo. Não foi por acaso, obviamente. The Night, do ponto de vista das palavras cantadas, é também sobre esse irremediável percurso. “When You Were Young”, se dúvidas existissem, é exatamente sobre isso, e assim podemos afirmar que o álbum comporta um óbvio pendor conceptual. Algum sentimento de perda (“When you’re twenty or twenty one / You have so much belief”, diz-se no tema de abertura) povoa todo o disco, mas não parece haver, pelo menos para quem escuta, qualquer problema nisso, uma vez que tudo é tão encantatório e belo. “No Rush”, por exemplo, até arrepia, tal a magia e a elegância de todos os seus sons. Há momentos em que a banda parece roubar certas delicadezas sonoras a Laurie Anderson (“Wonderlight”), outros em que, sem furtos ou semelhanças de qualquer ordem, os Saint Etienne parecem uma banda abençoada pelos deuses da beleza e da escuridão, como na derradeira “Alone Together”. Que bom é chegar ao fim de The Night, abrir os olhos bebendo o último gole do que resta no copo, e ouvir as palavras finais, que dizem “Time flies / It slips and slides”, conscientes de que nada há de mais certo. “Time flies”, e é bom que voemos com ele.