Suspiro…, de Maria Reis, não é um disco carregado de raiva punk, tristeza indie ou alegria pop. É um disco em que todas as emoções foram atiradas para dentro de uma centrifugadora e servidas de um jorro.
É numa das últimas canções de Suspiro… – “Metadata” – que Maria Reis nos diz ao que vem: “Eu tomava comprimidos se achasse que mudasse / Passou-me p’la cabeça uma fé e converter / Mas entrego-me ao instinto e agarro na guitarra”. Ganhamos todos por ser esta a decisão de Maria Reis: traduzir as suas angústias e pensamentos para canções cheias de pujança.
Há mais de uma década de Maria Reis é parte essencial da música alternativa portuguesa e Suspiro… é o seu disco mais maduro até agora (incluindo aqueles que gravou com a irmã enquanto Pega Monstro). É também o seu primeiro álbum a solo. Entre 2019 e 2022 lançou três Eps com sete faixas cada, mas agora que teve mais tempo para compôr e gravar atirou 11 canções.
O disco abre com “Amor Serpente”, uma canção de ansiedade, desconforto e tesão. Uma canção que encapsula muitos dos temas que serão explorados mais à frente no álbum. Em entrevista ao Ípsilon, Maria Reis explicava que o Suspiro… do título tanto pode ser “um suspiro romântico, de ansiedade, de raiva, de desilusão”. Ou seja, de todas as coisas boas e más. De todas as coisas que fazem sofrer e daquelas que fazem sorrir. Este não é um disco carregado de raiva punk, tristeza indie ou alegria pop (e será que as canções pop alguma vez foram felizes?). É um disco em que todas as emoções foram atiradas para dentro de uma centrifugadora e servidas de um jorro.
Apesar de não haver momentos tão punk como “há gajas que gostam de levar na boca” há outros temas com o mesmo nível de “deadpan”: “não gosto de nada, quero ser infeliz / eu dou-te a custódia, tou farta de mim / um soco na cara sorriso que diz / ‘acaba depressa só quero dormir'” na orelhuda “Estagnação”.
Há alturas em que Reis olha para dentro como em “30”, sobre o envelhecimento, e em que olha para fora, como em “Fado Salineiro”, influenciada pela música tradicional açoriana. Mas há sempre algo muito pessoal em todas as canções que Maria Reis escreve.
Nos últimos anos a música de guitarras é liderada por mulheres (Julia Jacklin, Angel Olsen, Soccer Mommy, etc.) e Maria Reis é das melhores a fazê-lo. E suspiramos de prazer por cada vez que a ouvimos.