Uma noite de vendaval sónico que crava sulcos na memória e traz um passado não muito distante para o presente.
Não é necessário ser-se muito atento, nem tão pouco perspicaz, para constatar que certos nomes perduram através de uma massa de memórias levadas pelo vento da indiferença dos tempos modernos. Alguns varrem-se, outros são varridos. Contudo, outros mantêm-se vivos.
Cartaxo Sessions, um sério caso de estudo, é um desses nomes. Ao longo de mais de uma década, as Cartaxo Sessions continuam a apostar com sucesso e bom gosto numa alternativa a ofertas de fácil digestão comercial num estilo musical que muitos insistem relegar para segundo plano.
A noite começa como uma peregrinação Shinto, responsabilidade de Amaterazu, trio viseense com mais de uma década de invocações em nome da Deusa do Sol nipónica que lhes dá o nome.
Cerimonialmente trajados, os Amaterazu convidam-nos a participar numa viagem equilbrada e constante de aparente mas intrínseca simplicidade carregada de ambiência. Ao longo de cerca de 45 minutos, o trio regala-nos com ambientais crescendos transportados por um sólido mas flutuante trabalho de bateria percutiva ao qual se junta uma dualidade de baixo e guitarra que eleva a intensidade da sua sonoridade progressivamente pesada mas com dinâmica para pausar e respirar um pouco antes de novas invocações.

Amaterazu é experiência a ser testemunhada pelo requinte em que camadas se montam numa coesão una na qual pequenos desvios introspectivos fazem sobressair a mestria dos músicos em total controlo livre sobre os seus instrumentos.
Após esta bela primeira parte, a expectativa de rever Astrodome ao vivo estava ao rubro.
Desde o primeiro álbum que a banda nortenha evita lugares comuns e transforma num gigantesco furacão sónico magistral o que seria menor em mãos menos hábeis. Cinco anos de pausa após os anteriores concertos da banda, o espírito que a memória conjura mantém-se intacto e continua a propulsioná-los a compôr novos temas criando assim novas cores a uma já majéstica palete de sons.
E majéstico é o que os Astrodome são. Se é evidente em estúdio uma envolvência que recarrega a bateria da alma, ao vivo essa mesma envolvência ganha volumosos contornos de difícil categorização. Sendo que ‘Categoria’ é a palavra certa para descrevê-los. O que fazem, fazem com categoria.

Apresentando o novo Seascapes com pitadas de flashback dos álbuns anteriores, a grande força de Astrodome está em como tudo converge numa larga avenida única de descargas, ritmos directos e melodias simples a funcionarem como uma mente só. Melodias que nos surpreendem, obrigando o corpo do ouvinte a balouçar-se em conformidade com a forte batida de base em conluio com os potentes riffs de baixo e guitarras que nos são apresentados ora em groove ora em notas sustentadas até à beira do precipício de um doce feedback sem nunca cair em exageros desmesurados.
Podiam ser apenas uma banda de improvisos perdidos num cósmico alto mar mas são precisamente estes cativantes momentos quase sempre inesperados que nos trazem de volta à terra de súbito enquanto mantêm a mente algures noutra dimensão. Este concerto prova que Astrodome não perdeu nada da força a que habituaram os seguidores do grupo, ávidos e sedentos por saber se a memória não lhes pregou truques e se os concertos assistidos no passado não foram produto da imaginação.
Memórias varridas pelo vento? Só se permitirem que as circunstâncias do presente o façam. Louvemos as Cartaxo Sessions por manter viva a memória e impedir que esta seja varrida para debaixo do tapete como se se tratasse de um sonho poeirento.
Fotografias: Rui Gato




















