O Doclisboa começa amanhã e traz a sua habitual secção Heart Beat, com filmes sobre alguns dos nossos artistas preferidos. O Altamont teve o privilégio de ver Peaches Goes Bananas e conta-vos o que guardamos dos 74 minutos do documentário.
Todos conhecem Peaches (Merrill Nisker) pela sua personalidade irreverente e pelas suas canções – eu incluo-me neste grupo. Quando surgiu a oportunidade de escrever sobre este documentário, pensei que ia encontrar apenas a artista que suporta o ícone queer e feminista, mas, como em qualquer pessoa, cabem muitas vidas em Peaches.
O filme começa com filmagens de uma das suas performances em concerto, mas rapidamente passamos a uma reflexão sobre o corpo, o corpo em mudança de Peaches, o que acaba por nos deixar a reflectir também. A frase “making aging cool again” referida no documentário alugou um T3 na minha cabeça e, apesar de ser uma alusão a outro slogan em nada relacionados com afirmação positiva, esta refere-se à aceitação do envelhecimento humano, sobretudo da mulher. A verdade é que o corpo da mulher de The Teaches of Peaches não é igual ao que vemos em Peaches Goes Bananas, e não há mal nenhum nisso.
O documentário é feito de vários saltos temporais, on stage e off stage, retratando a vida de uma artista que durante quase 20 anos procurou reinventar-se e afirmar a sua identidade, transpondo limites e influenciando a cultura pop mainstream, levando outros a segui-la através da sua imagem ousada e sexualmente aberta.
Mas não é isto o que levamos do filme. Muitas vezes, quando encontramos estes grandes artistas, esquecemo-nos do seu pedaço humano. Em Peaches Goes Bananas assistimos à relação de Peaches com a sua irmã, Suri, com ELA desde os 20 anos, relação que comove a artista e nos comove também; o carinho dos seus pais afirmando o desejo que ela deixe de ser “almost famous” e passe a “famous”; a sua passagem pela creche do YMCA, onde conquistou as crianças através da música (e também conquistou abraços dos pequenos); e não me irei alongar mais na enumeração de momentos enternecedores presentes no documentário por prejuízo ao visionamento alheio.
A realizadora Marie Losier passou 17 anos a registar os vários “eus” de Peaches. O resultado vai ter exibição única no Doclisboa, no dia 18 às 18h45 na Culturgest. Mesmo que não sejam fãs da artista, vejam e descubram como é a mulher com fragilidades por detrás da performer determinada. Afinal, até as punks entram na menopausa.