
Em entrevista, quando questionada sobre a forma quase sempre inesperada com que parece contrariar as expectativas de quem a segue, PJ Harvey menciona a sua passagem por escolas de arte e de como isso se reflecte na sua música. Passa por uma “exploração e auto-desafio”, trata-se de “colocar-me numa posição de medo por não a ter experienciado antes” diz a cantora. Parece ser essa a equação para o génio musical de PJ Harvey, um constante desafio que surpreende quem decide seguir o seu trabalho. Um trabalho que junta diversas áreas artísticas, que procura a metamorfose não só da música mas também da arte.
Em 1992, em entrevista à NME, PJ Harvey demonstrou alguma preocupação por se distanciar da sua faceta política. “Sinto-me desconfortável comigo (…) Sinto que estou a negligenciar esse lado. Parece que fui embrenhada num sentimento de introspecção, que não aprecio em mim” responde a artista. “Pode tornar-se perigoso se em breve não fizer algo sobre isso”.
Mas após o seu álbum de 2011, Let England Shake, somos novamente confrontados com temáticas políticas em The Hope Six Demolition Project. O nono álbum é entendido como um aliança entre o jornalismo, a poesia e a música. Harvey procurou viajar para três áreas de conflito – o Afeganistão, Kosovo e Washington D.C.. Podemos entender este álbum como uma fiel continuação do seu antecedente.
“Durante toda a minha vida tenho estado profundamente interessada com o que se passa no mundo em que vivo. Quando falei sobre Inglaterra, procurei ambiguidade de forma a poder falar sobre emoções que qualquer pessoal poderia sentir sobre o próprio país em que vive” em entrevista sobre o álbum de 2011 Let England Shake.
O projecto iniciou-se em 2011, após o contacto de Harvey com o trabalho do fotógrafo Seamus Murphy. “A Polly e eu queríamos iniciar um projecto juntos, trabalhar em locais que ambos considerássemos interessantes e relevantes”, disse o fotógrafo em entrevista. “Conhecemos-nos após o contacto dela com as minhas fotografias do Afeganistão, mais tarde mostrei-lhe mais do meu trabalho, incluindo fotografias da guerra em Kosovo nos finais de 1990.”, acrescentou. Podemos assim assumir que a escolha dos locais foram em grande parte influenciados pelo fotógrafo que a acompanhou nas viagens.
Antes do seu lançamento, The Hope Six Demolition Project já trazia alguma controvérsia devido ao seu single “The Community of Hope”, na letra Harvey refere-se ao bairro Anacostia, em Washington, como “caminho da morte”. “And the school just looks like shit-hole / Does that look like a nice place?” “OK, now this is just drug town, just zombies / But that’s just life”. Tais palavras não foram bem recebidas pelos políticos de Washington, que mostraram a sua indignação. Como ainda não foi dada nenhuma entrevista, não podemos assumir se seria uma visão da artista ou o retrato de terceiros durante a visita, “A well-known “pathway of death” / At least that’s what I’m told”, ficamos assim com alguma margem para interpretação.
É, no entanto, “Chain of Keys”, a música que talvez nos cause maior desconforto. A sonoridade ligeiramente sombria não nos deixa indiferentes. A letra fala sobre uma mulher em Kosovo que mantém consigo as chaves de uma casa abandonada, a casa pertence a um vizinho que parece nunca voltar, “The dusty ground’s a dead-end track / The neighbours won’t be coming back”. A chave neste contexto simboliza a esperança da mulher vestida de negro, “A key, a promise, or a wish / How can it mean such hopelessness”.
O álbum termina com a música “Dollar, Dollar”, a escolha não parece ser arbitrária. Talvez Harvey esteja a mostrar a impossibilidade de ver com os olhos de quem sofre as tragédias da guerra ou da pobreza. “All my words get swallowed / In the rear view glass”. Este álbum mostra-nos uma visão artística, apaixonada e trágica. Harvey procurou retratar a realidade tal como esta lhe era apresentada, no entanto, parece que a cantora sente a sua perspectiva como observadora insuficiente para retratar os infortúnios da vida humana.
Texto de Filipa Leite