O terceiro dia do Vodafone Paredes de Coura foi dominado por vozes femininas: Cassandra Jenkins, Lambrini Girls e Black Country, New Road deram o tom. A fechar, King Krule mostrou porque continua a ser um dos artistas mais relevantes do indie e alternativo internacional.
Cassandra Jenkins subiu ao palco secundário depois da enchente no palco principal patrocinada por Dino Santiago. Nem todos rumaram para ver a norte-americana, e só esses perderam. Se a frente estava focada na música, atrás dividia-se a atenção entre cervejas e caipirinhas. A leveza e a atmosfera intimista de Cassandra perdiam-se entre as copas das árvores da Praia do Taboão, só se impondo quando a música subia de tom, e mesmo assim por breves momentos. O som não esteve nas melhores condições, mas foi apenas um detalhe. Mais uma artista rendida a Coura, logo na sua primeira vez em Portugal. “Hard Drive”, quase no final, foi um dos momentos mais bonitos do concerto: o vento a brincar com a saia de Cassandra deu-lhe um tom lírico e quase teatral.

Ainda com Geordie Greep a dar os últimos acordes, arrancavam os Bar Italia no palco Bacana Play. A banda britânica de indie rock, que tinha falhado a edição anterior devido a uma emergência médica de um dos seus membros no Porto, regressou para a sua desforra. Entre canções novas e temas já conhecidos, houve afinidade imediata com o público. Tal como diria Ivete Sangalo nos tempos da Banda Eva, os Bar Italia literalmente levantaram poeira, e ao terceiro dia já sabemos: em Coura, o pó é sinónimo de bons concertos.
Black Country, New Road protagonizaram um dos momentos mais bonitos do festival até agora. Mágico, quase como se saído de uma caixinha de música. Pela segunda vez em Portugal, provaram que nem a saída de Isaac Wood abalou a banda. Tyler Hyde, Georgia Ellery e May Kershaw dividem o protagonismo em harmonias vocais muito especiais (miúdas de franja no indie nunca falham). Ao cruzar folk, pop barroco, rock progressivo e outras influências, surpreendem pelo uso variado dos instrumentos, nem todos os dias se vê uma guitarra elétrica tocada com arco. E há também a relação com o público: um respeito quase solene, que transformou as colinas do anfiteatro numa sala íntima, onde a música se espalhou de forma única.

As Lambrini Girls quase deitaram o palco secundário abaixo com a sua “big dick energy”. Cerveja voou e provavelmente não só cerveja. O trio inglês, armado de punk rock politizado (passe a redundância), não se coibiu de apontar o dedo à ferida. “Gostam do vosso governo?”, perguntaram. Tal como elas não gostam do britânico, o público respondeu que também não. Do grito contra o governo ao coro de Free Palestine foi um instante. Quem não estivesse de acordo, estava convidado a sair. Foram nove canções despachadas à velocidade punk, em menos de 45 minutos. Ficou a certeza: ainda bem que em 2025 continuamos a ter mulheres com esta garra.

Archy Ivan Marshall, King Krule, trouxe todos ao palco principal com a sua mistura de géneros, entre introspeção, claustrofobia e caos. O concerto, como tantos este ano, também se tingiu de política, não deixando escapar a urgência de Gaza. Pela segunda vez no festival, manteve quase sempre a intensidade, apenas quebrada pelas longas pausas para afinar a guitarra, que arrefeciam momentaneamente o ânimo.

Mas o público já estava conquistado desde o início, até houve espaço para um coro coletivo, arrancado a partir do icónico “siii” de Cristiano Ronaldo. O espetáculo terminou em apoteose com “Stoned Again”, numa performance fogosa, celebrada pelo inesperado crowdsurf do saxofonista.
Fotografias: Jorge Resende













































