Os primeiros dias do Tremor 2024 passaram-se entre punk explosivo e sintetizadores espaciais, sem esquecer um encontro com uma lenda viva, tudo com vista para o interminável oceano atlântico
O dia em que Jards Macalé nos lembrou que é também um Homem
Apesar de ter ainda fresco na memória o fantástico concerto que Jards Macalé deu no Festival Mimo em Amarante, no Museu Amadeo de Souza-Cardoso, não eram grandes as expectativas por voltar a vê-lo ao vivo. É tremendamente injusto, bem sei, mas tal devia-se ao facto de já saber, de antemão, que o cantor carioca tinha acabado de ser atropelado por uma pneumonia sempre incapacitante em termos vocais, há cerca de três semanas, na sua digressão pela Suécia. Fevereiro neste hemisfério é muito mais agreste do que o Janeiro do seu Rio e deixou marcas contundentes, como se viria a (quase não) ouvir. Não deixa, no entanto, de ser um acontecimento estar a escassos metros de uma lenda viva da MPB, que se tornou imortal depois de um início de carreira em que ficou famoso por ser um fracasso comercial. A sala principal das Portas do Mar estava a meio gás, com alguns fãs incondicionais e ruidosos, meia dúzia de hipsters de primeiro EP que não sabiam quem estava no palco e alguns turistas enganados, que vieram para a peregrinação ao Espírito Santo mas que não seguiram bem as instruções do Waze. O concerto foi sempre pautado pela falta de voz de Jards, que num registo esforçado-afónico ia cantando empenhadamente, sem conseguir disfarçar, contudo, as mazelas recentes provocadas pelo streptococcus pneumoniae. Apesar disso, os corpos pela sala iam serpenteando ondulados, embalados pelo swing e pelo groove característicos da música de Jards, que esteve musicalmente muito bem secundado pelo Homem do Bussaco na guitarra e pelo vocalista dos Sepultura no baixo, que iam animando as hostes com a sua ginga sonora e enleante. Para os crentes indefectíveis, amantes do carioca e da MPB, não deixará de constituir um marco na história terem tido a oportunidade de ver ao vivo o octogenário, sabendo já que no futuro não irão abundar as oportunidades de o voltar a fazer. Apesar de todas as contingências, não deixou de ser um momento memorável o pontapé de saída deste Tremor. O dia em que fomos brindados com uma generosidade e uma entrega ímpares, de um Deus que, mesmo debilitado, veio presentear os mortais com pérolas dançantes que perdurarão muito para além da sua partida para o panteão.

Trabalhos manuais e uma bateria atrás da igreja
Diz-se por aqui que “Tremor é amor” e, ao segundo dia, foi possível verificar que este não é um festival comum e que, de facto, há coisas que só acontecem aqui. Perante a manhã limpa e amena, rumámos ao Espaço Nóbrega, bem no centro da cidade, para participar na Oficina de Pintura de Bonecos de Presépios oferecida pelo Museu da Lagoa por ocasião da exposição Reinterpretando Arte Bonecreira e Presépios de Lapinha, que ali inaugurou no primeiro dia. Estes presépios, tradicionais da região, serviam de inspiração para toda a comunicação do festival, que os reinterpretou, criando versões diferentes e únicas das figuras. Naquele workshop, os participantes tinham a possibilidade de escolher uma figura de barro e pintá-la, da maneira tradicional ou a la Tremor, sob as instruções atentas do mestre bonecreiro João Arruda. Saímos felizes e com uma figura da “Mulher do Capote”, traje tradicional açoriano, para completar o presépio do próximo Natal.


Ainda sobre coisas que parecem não pertencer ao local onde as encontramos, a proposta do primeiro Tremor na Estufa não desiludiu as expetativas, que já eram altas. Os Tremores na Estufa prometem levar os festivaleiros a locais da ilha onde não se esperaria ver um concerto, criando experiências únicas e permitindo também que quem vem de fora conheça pontos menos turísticos e viva uma experiência mais autêntica. No primeiro de dois eventos em localizações secretas, entrámos num autocarro que nos deixou na Ponta de Santo António, depois de nos permitir lavar a vista com o cenário dos Teletubbies da vida real que são os vastos campos verdes do interior da ilha. Alguma vez imaginaram ouvir um concerto de noise drumming atrás de uma igreja e com vista para o mar? Nós também não. Landrose, baterista dos CERE, foi o anfitrião da festa, enchendo o Miradouro do Rosário com uma incansável energia eléctrica e explosiva – Lightning Bolt ou Death Grips foram alguns dos nomes que nos passaram pela cabeça. Sozinho dentro de uma estrutura em forma de búzio, foi rapidamente rodeado por um mar de gente que não demorou a render-se ao beat que, parecendo noturno, soou perfeito naquele fim de dia, e parecia capaz de fazer dançar até os habitantes do cemitério ali ao lado.

Anticiclone Hetta
Foi um António Banderas envolvido em volúpia que deu ontem a conhecer ao público do Ateneu o seu novo projecto, Les Moustaches Diaboliques. Os muitos bigodes presentes na plateia, quer masculinos, quer femininos, foram acenando que sim em movimentos sincopados ascendentes e descendentes, numa (de)cadência totalmente descoordenada. As músicas fluíram a um ritmo furioso, não sendo sequer possível discernir as letras, imagem de marca do screamo de raíz, tal a voracidade com que o vocalista disparava lexemas em todas as direções.
Depois deste intróito efabulado, patrocinado pela Especial Munich, posso dizer-vos que os Hetta, miúdos responsáveis pelo álbum que se tornou no(s) farolim(s) que há-de guiar a nova música alternativa independente lisboeta, a partir do Montijo, ainda tiveram tempo para fazer um intermezzo no concerto devido a problemas técnicos, que acabou por tornar-se num original de 10 minutos, do qual uma garota no público parecia ter conhecimento prévio, a julgar pela forma desenfreada como continuou a menear a anca. O concerto começou como acabou, com toda a gente a viajar no limiar da surdez, com um esgar. De contentamento?

Sintetizadores ao alto
Apesar da forte presença punk no cartaz do festival, o segundo dia foi dominado por música electrónica e sintetizadores.
À tarde rumámos ao Estúdio 13, armazém perto de uma plantação de ananases (provem a cerveja de ananás!), para espreitar o projeto Orquestra Modular Açoriana com Marshstepper (dizemos espreitar porque a apresentação do coletivo americano durou oito horas). Esta espécie de residência no Tremor deu origem à Orquestra Modular Açoriana, um conjunto de músicos, dos açores e não só, que ali se juntaram para ajudar os Marshstepper a construir a parede de frequências diversas, criando a sonoridade daquela performance imersiva. Como acontece numa orquestra clássica, não era fácil discernir o que é que cada uma das cerca de 15 pessoas reunidas em volta da mesa no centro daquela sala escura estava a tocar. O que importava eram, claro, as frequências moduladas que saíam dos vários instrumentos e aparelhos electrónicos, criando uma atmosfera meio espacial/meio subaquática de ruído eléctrico.

Um dos nomes mais antecipados do segundo dia do festival era Colleen, que também tinha uma mesa com sintetizadores, mas que os manobrava sozinha. Perante uma plateia cheia no Teatro Micaelense, Colleen confessou-se nervosa e pediu desculpa por possíveis enganos Disse-nos que este seria o seu 250º espetáculo ao vivo e que estava a sentir-se emocional com a oportunidade de o poder fazer no meio do oceano atlântico. Apesar dos nervos, e de um certo entra e sai incomodativo por parte do público que foi rodando, a música ambiental eletrónica de Colleen não deixou de nos transportar para um outro plano astral, se é que tal coisa é possível. Com os seus synths hipnóticos e serpenteantes, Colleen conseguiu levar-nos para o seu universo sonoro e deu um belo espetáculo, sempre agradecida pelo carinho e encantada com o local onde estava.

Faizal Mostrixx é um produtor, DJ, coreógrafo, dançarino e artista visual do Uganda que junta sons da musica tradicional africana com electrónica contemporânea para criar aquilo a que chama “música afrofuturista”. Num dos últimos concertos da noite, subiu ao palco das Portas do Mar para confirmar que é, de facto, um homem dos sete ofícios. Com a cabeça dentro de uma espécie de capacete com bicos, Faizal Mostrixx começou o seu set relativamente devagar mas não demorou a convencer todo o público (que não era pouco) que estavam ali para dançar. A batida, que já era difícil de resistir, tornou-se como que uma imposição perante a energia e o entusiasmo do artista que bem cedo deixou o seu posto atrás dos pratos para realizar elaboradas coreografias junto ao público. Claramente muito talentoso, vimos Faizal Mostrixx empoleirar-se numa coluna ao fundo do palco e passar por baixo da mesa para saltitar perto de nós, tudo num único e fluído movimento. As sonoridades tradicionais trazem à sua música texturas deliciosas que casam muito bem com o ritmo intransigente da electrónica moderna. Sentiu-se muito calor naquela sala onde, durante mais de 1 hora e sem grandes pausas para respirar, dançar foi o imperativo.

Assim se passaram os primeiros dias do Festival Tremor 2024, entre punk explosivo e sintetizadores espaciais, passando por um encontro com uma lenda viva, tudo no meio do interminável oceano atlântico. Nos próximos dias ainda haverá muito para explorar, como o concerto de Sam The Kid em Rabo de Peixe ou a caminhada Tremor Todo-o-Terreno pensada pelos Lavoisier. A energia vulcânica sente-se e a festa acabou de começar.
Texto de Ana Lúcia Tiago e Sílvio Fernandes
Fotografias de Vera Marmelo e Marina Cruz cedidas pela organização