Mais uma noite mágica no Ageas Cooljazz. Os enormes Tindersticks ainda não perderam a essência e estão em ótima forma.
Talvez não estejamos muito longe da verdade se dissermos que foi há quase 30 anos que os britânicos Tindersticks se apresentaram em Portugal pela primeira vez, num mítico concerto em Lisboa, na Aula Magna. Entretanto, talvez já nem com a ajuda da IA saberemos quantos outros realizaram em terras lusas. Foram bastantes, certamente, ao ponto de serem “muito cá de casa”, muito nossos, abandonando aos poucos o rótulo inicial de banda de culto para se tornarem mais mainstream, se é que a expressão faz verdadeiro sentido quando se trata de Stuart Staples e companhia. Talvez não faça, mas ficou escrito, mesmo assim. Seja como for, estiveram ontem no Hipódromo Manuel Possolo e foram os cabeças de cartaz do penúltimo dia da edição de 2025 do Ageas Cooljazz. O Altamont esteve lá e vai contar-vos tudo, mas porque a festa não se fez apenas com os britânicos, falemos do que aconteceu antes. Pelas vinte e uma horas e quinze minutos, no mesmo palco Ageas, os lusos Ganso atuaram, abrindo assim para os mais que esperados Tindersticks.
Os Ganso estiveram mais ocupados em tocar temas do seu mais recente álbum, Vice Versa, do ano transato. As canções são tipicamente Ganso, tranquilas, redondinhas, cantadas em português, um pouco na linha dos Capitão Fausto, mas isso é coisa que todos sabemos. A marca Cuca Monga também passa por estes rapazes e isso nota-se no som que fazem. As letras são, quase sempre engraçadas. Ouça-se, por exemplo, “Gino (o Menino Bolha)”. O concerto foi simpático, a banda foi tentando animar o pouquíssimo público que tinha à sua frente, mas a temperatura manteve-se quase sempre morna durante os cerca de quarentena e cinco minutos de duração da atuação dos cinco rapazes da banda lisboeta. Terminaram com “Herói / Vilão”, que estenderam durante algum tempo, na parte final, cheia de groove até ao último instante e o ponto derradeiro deu-se com a ritmada “Papel de Jornal” (mais uma letra curiosa – “Ei tu / Sim, tu / ‘Tou-me a cagar para o que tu dizes / ‘Tou-me a cagar para o que tu escreves / Se me aplaudes ou me apontas o dedo, é-me amplamente indiferente” – saindo a banda do palco logo a seguir, enquanto tocava “Live and Let Die”, dos Wings, tema de abertura do oitavo filme da série James Bond, com o mesmo título da canção. O concerto foi, como dissemos, simpático. Recordar esse longínquo tema de 1973 também.
Seguiram-se os Tindersticks e o que mais nos espantou foi o pouquíssimo público a assistir. É verdade que, como começámos por referir, a banda inglesa passa muitas vezes por cá, mas mesmo assim foi um bocado doloroso ver tão pouca gente no Hipódromo Manuel Possolo. Talvez seja já o reflexo das férias? Alguma contenção para as férias que estão a chegar? Noite de jogo de apresentação do Benfica, na Eusébio Cup? Enfim, pode nada disto fazer sentido, como também não faz a escassez de público para uma banda tão bem estimada pelos portugueses.
Aquilo que se espera de um concerto dos Tindersticks aconteceu. Refinamento no alinhamento, aquele desenho intimista e característico que fazem subir ao palco quando se apresentam, detalhe sonoro irrepreensível, uma atmosfera que resvala para a doce melancolia. Depois, há a voz e o timbre especiais de Stuart Staples, reservado, mas intenso. Parece que regressamos sempre a um qualquer passado que, ilusoriamente, nos pertence. Essa marca distinta da banda mantém-se sem mácula. O som dos Tindersticks é tão idiossincrático que poderia, ao fim de mais de trinta anos de carreira, ter-se esgotado completamente. No entanto, o curioso é que continuam a fazer discos atrás de discos sem grandes desvios de forma, mas que soam sempre bem. É, de facto, uma fórmula vencedora. Começaram com “How He Entered”, tema de 2016, do soberbo The Waiting Room” e a partir daí dançámos a valsa lenta e boa ao encontro de “Trees Fall”, “Falling, the Light” e “Nancy”. Que arranque! Que instantes maravilhosos! “Nancy, Nancy answer me / Your silence is worse than what you might say”. A noite, que por aqueles lados nem no verão costuma dar-nos sossego, sossegou para dançar também, cheek to cheek, com o intimismo da voz de Staples. O concerto foi avançando até nos surpreender com The Lady With the Braid, cover de Dory Previn do início dos anos setenta. Não esperávamos tal coisa, e talvez por isso tenha tido um brilho especial e quente. “The Bough Bends”, “Medicine”, “Always a Stranger” foram momentos igualmente resplandecentes (aquela “Medicine” cura qualquer maleita de ordem sentimental, meu Deus), assim como “The Secret of Breathing” encheu o ar com a sua brisa fresca e outonal. É um dos mais aprazíveis temas do recente Soft Tissue, sem ponte de dúvida. Elegante e subtil como poucas. “Turned My Back” é apoteótica, sobretudo quando a voz do guitarrista se sobrepõe à de Staples (“This freedom / This freedom”). Já nos aproximávamos do fim e ainda houve tempo para “Don’t Walk, Run”, “New World” e “Show Me Everything”.
Depois de muita insistência, lá veio o encore com a hipnótica “Stars at Noon”, seguindo-se “Pinky in the Daylight” (enquanto algures entre o público se pedia insistentemente por “Tiny Tears”), terminando com “For the Beauty”. O concerto foi longo, mas valeu cada minuto, cada tema, cada interpretação. No fim, o que apetecia era perguntar, a quem nos pudesse dar ouvidos: “Can we start again?”
Fotografias: Hugo Amaral



















Obrigado, César. Não fui a esse concerto. Abraço
A “The Lady With the Braid” também passou pela Aula Magna, no já distante ano de 2024.