Kant diz-nos que um objecto é belo quando provoca prazer pela sua simples existência, fugindo às regras da lógica e à racionalidade. Podia entrar em grandes dissertações sobre a noite da passada quarta-feira, mas também posso deixar só assim. A música e os shows de Tim Bernardes são simplesmente belos.
Está estudado o fenómeno quase religioso da música que nos move e que nos motiva a ir a espectáculos ao vivo uma e outra vez. Há concertos que nos divertem, outros que nos libertam e outros ainda que nos levam simplesmente à descoberta. E, depois, há concertos que nos acolhem. Que nos abraçam, que nos guiam e que nos mudam. Há artistas que vamos ver uma vez. E, depois, há artistas que vamos ver todas as vezes que nos for possível. Cujos movimentos seguimos atentamente, porque as suas músicas se tornam os nossos salmos pessoais.
Portugal recebeu esta semana, em Lisboa e no Porto, o Raro Momento Infinito, o espectáculo inédito em que Tim Bernardes sobe ao palco com outros 17 músicos e um maestro para tocar o seu repertório com os arranjos orquestrais de estúdio. Porque os arranjos são gravados individualmente, o músico começou, em 2023, a transcrever alguns deles para poderem ser tocados ao vivo e, em Setembro deste ano, o espectáculo tomou forma e foi apresentado em São Paulo. Inaugurou-se, assim, uma sucessão de oportunidades únicas de ouvir as músicas da carreira a solo de Tim tocadas no seu todo. Contudo, a logística de um concerto desta dimensão exigia que, para as apresentações portuguesas, a orquestra e a sua direção fossem também de cá, o que acabou por tornar a experiência um bocadinho mais única por aqui.
Em Lisboa, rumámos a um Campo Pequeno esgotado. Ao todo, seriam Tim, a orquestra (seis violinos, três violas, dois trombones, dois flugelhorn, um saxofone barítono, uma harpa, baixo acústico e percussão) e o maestro Martim Sousa Tavares em palco. Uma festa. A sala ia-se compondo e o entusiasmo (pelo menos o meu) era audível. Pessoas tentavam encontrar outras pessoas pelo meio da plateia. Acenavam-se entre sorrisos.
Os primeiros acordes de “Nascer, Viver, Morrer” soaram e um feixe de luz atrás dos músicos anunciou que estávamos perante mais uma noite de devoção. As expectativas para um show de Tim Bernardes são sempre muito altas, porque as suas (felizmente) frequentes vindas a Portugal foram-nos habituando à promessa cumprida de um conluio de intimidade, luz e carinho. Percebemos logo que esta noite não seria excepção.
Naquele que disse ter sido o maior concerto a solo da sua vida, Tim Bernardes percorreu a sua carreira em nome próprio, oscilando entre o Recomeçar (2017) e o Mil Coisas Invisíveis (2022), e ainda nos presenteou com a “estreia mundial” de “eu vou” e de “Volta”, d’O Terno, tocadas ao vivo com os arranjos de orquestra. A setlist de 2 horas passou ainda por “Prudência”, música que Tim compôs para Maria Bethânia em 2021, e, no encore, “Poeira Cósmica”, single lançado com os BADBADNOTGOOD em 2024. Esta última merece todas as notas de destaque porque pudemos ver Tim aventurar-se na bateria e foi uma maravilhosa conclusão da viagem pelo cosmos que iniciámos assim que nos sentámos nas cadeiras da plateia.
Já sabíamos, mas voltámos a ter a confirmação, de que, sozinho ou acompanhado, Tim Bernardes tem a capacidade incrível de ocupar a totalidade da sala onde toca, independentemente da sua dimensão, com a sua voz e a missa de carinho que prega. Não há crise existencial, dor de crescimento ou coração partido que resista à profundidade emocional entregue em cada arranjo e à grandiosidade da intimidade de cada música. “Leve” foi intenso, “A Balada de Tim Bernardes” belíssimo — escrevi “show!!!” nas minhas notas — e ouvir a “Ela” ao vivo é sempre desarmante. Devemos a Martim Sousa Tavares a inclusão de “Histórias do Cinema” no repertório português, tendo sido outra estreia da noite, pelo que deixo aqui o meu agradecimento pessoal. Foi muito bonito. Por fim, penso ter visto poucas coisas ao vivo tão bonitas como este “Recomeçar”. Que sorte a de todos os presentes podermos ter vivido este concerto. Ficávamos a noite inteira.
A escolha da sala é compreensível pela sua dimensão, mas foi precisamente esse aspecto que tirou a este concerto algum aconchego, alguma proximidade, que os outros concertos do artista em Lisboa tiveram e que os tornaram inesquecíveis. Tim Bernardes enche qualquer sala, mas eu posso jurar que, no Coliseu, éramos só ele e eu. Desta vez, éramos o espaço inteiro. Foi uma experiência diferente também por isso. Tudo o resto manteve-se como sempre: o seu “perfeccionismo pragmático” traduzido numa minuciosa atenção aos detalhes, a intensidade do sentimento, a conversa bem-disposta permanente com o público. Sentimos que somos todos amigos ali.
Por tudo isto, os concertos do Tim Bernardes são de presença obrigatória. Não apenas porque a sua música é de escuta obrigatória, mas porque os concertos são mais do que a música tocada ao vivo. Os concertos do Tim Bernardes são sempre momentos irrepetíveis, catárticos e, parece-me, necessários. Podiam passar a ser prescritos como parte de processos terapêuticos, porque, de facto, saímos sempre um bocadinho mais curados do que quando entrámos. Curados de um dilema, de uma dor, de um coração partido. Há sempre alguma coisa para curar e estes concertos relembram-nos daquilo em que deixámos de reparar.
Kant diz-nos que um objecto é belo quando provoca prazer pela sua simples existência, fugindo às regras da lógica e à racionalidade. Podia entrar em grandes dissertações sobre a noite da passada quarta-feira, mas também posso deixar só assim. A música e os shows de Tim Bernardes são simplesmente belos. Realmente lindos.
Fotografias: Felipe Kido

















