Um bom disco da realeza indie do rock americano mas que fica aquém da promessa que trazia.
O nascimento deste Hard Quartet veio praticamente do nada. Primeiro, o anúncio de que se tinha formado um supergrupo; logo de seguida um single e pouco depois um álbum inteiro, homónimo. Se 2024 teria uma salvação, parecia estar aqui.
The Hard Quartet são Stephen Malkmus (Pavement, Jicks), Matt Sweeney (Chavez, Superwolves, habitual colaborador de Will Oldham), Emmet Kelly (Cairo Gang, também colaborador de Oldham) e Jim White (baterista ocasional de toda a gente, desde Bill Callahan a Cat Power, passando por PJ Harvey ou Nick Cave).
Este pedigree e intenso cheiro a Matador e a Drag City (famosa editora indie de Chicago) dava-nos, assim, uma espécie de supergupo do rock alternativo americano. No entanto, quando pensamos em supergrupo pensamos inevitavelmente em algo inchado, cheio de egos, um certo tipo de “money-grab” com muitas purpurinas e pouco substrato musical. Mas isto é malta que tirou a carta nos anos 80 e se fez gente na cena alternativa dos anos 90, o que torna o Hard Quartet num bicho completamente diferente.
Se Malkmus é inegavelmente o mais conhecido e o mais bem sucedido dos quatro, a sua presença, embora bem sentida, não é dominadora, para o bem e para o mal. Como os próprios insistem em dizer, isto não é um projecto, é “mesmo uma banda”. E o disco soa a tal.
As 15 músicas não vêm assinadas pelo seu principal autor, sendo identificadas como um trabalho colaborativo. É claro que, aqui e ali, é mais fácil identificar Malkmus como o compositor, como em “Heel Highway” ou “Hey”, quando “Kill by death” lembra muito o tom de Sweeney no excelente disco de Superwolves. Mas isso, na verdade, não é o que mais importa. Este é um caldeirão no qual todos juntam os seus pozinhos, cozinhando colectivamente para dar um resultado final que tem um toque de cada um dos quatro músicos. E, além disso, vê-se muito bem que se estão a divertir à grande e a desfrutar da experiência mística de fazerem música juntos.
Sendo The Hard Quartet um disco bastante bom e que se ouve bastante bem, acaba por ter a sua fraqueza nalguma falta de coesão estilística (embora sempre no universo rock alternativo) e nalguma oscilação de qualidade média das canções. Simplesmente, faltam duas ou três canções maiores que a vida para levar a estreia dos Hard Quartet a ainda maiores dimensões de prazer. É claro que temoss “Rio’s song” (um dos primeiros singles), “Our hometown boy” (com guitarras Byrdsianas e um cheirinho a Beach Boys), a plácida e bonita “Heel Highway”, mas onde o disco se perde um pouco é quando acelera e as guitarras rasgam com mais intensidade. Os rapazes claramente estão a divertir-se mas as canções ressentem-se ligeiramente. Da mesma forma, a segunda metade do disco vai perdendo algum gás que trazia do início, com alguns temas mais longos e derivativos.
A ano de 2024 não foi, afinal, salvo pelos Hard Quartet, com um disco bem interessante mas que podia ter beneficiado com alguma edição, deixando o filet mignon e cortado nalguma palha.