Disco que agarra logo às primeiras audições, simples e eficaz, Very Human Features é bastante humano, em igual medida inteligente, melódico e divertido.
Antes de irmos aos Bug Club, há perguntas que precisam ser feitas – o País de Gales é mesmo um país, ou colocaram no nome “País de” para se autoconvencerem de que o são? Quem fez mais pelo País de Gales, o Rei Carlos III, o Gareth Bale ou o Ryan Reynolds? Qual a melhor cidade do País de Gales, Cardiff, Swansea ou Wrexham? Qual a melhor banda do País de Gales, Manic Street Preachers, Stereophonics ou Los Campesinos!? E em termos de artistas em nome próprio, Tom Jones, Shirley Bassey ou Bonnie Tyler? E, vamos ser honestos, quem raio consegue falar em galês? Bem, dúvidas há muitas, como podem ver, mas não estamos aqui para as resolver, estamos sim para falar de mais uma banda galesa, portanto sigam-nos por mais umas linhas.
Os Bug Club são um duo de amigos, Sam Willmett e Tilly Harris, que começaram a tocar juntos aos 14 anos. Experimentaram diferentes sonoridades, tiveram diferentes membros na banda, mas a fórmula que lhes está a trazer sucesso e reconhecimento (dentro das nossas medidas de sucesso e reconhecimento, claro) é o indie rock, com laivos de garage punk, pelo qual deambulam sobretudo desde o anterior On the Intricate Inner Workings of the System (2024), primeiro disco com carimbo da mítica Sub Pop. Very Human Features amplia essa base, ao incorporar elementos de glam rock e melodias pop deveras cativantes, lembrando o espírito irreverente dos Kinks e a acessibilidade melódica de um (vai para fora de pé, Alex, vai) Paul McCartney. A influência de bandas como Dinosaur Jr. também é perceptível nas guitarras sujas e riffs distorcidos que permeiam músicas como “Have U Ever Been 2 Wales”, single lançado antes e que acabou por ficar de fora do álbum, e que é uma ode irónica ao “país” natal da dupla.
Se quisermos referir músicas que se destacam no álbum, podemos lançar para a mesa “Beep Boop Computers” e “How to Be a Confidante”, onde as vozes de Sam e Tilly se entrelaçam de forma quase telepática, criando diálogos musicais cheios de humor e crítica social. Já “Muck (Very Human Features)” é mais experimental, remetendo a discos anteriores da banda, com toques de folk e spoken-word. A faixa final, “Appropriate Emotions”, é uma bela síntese da sagacidade das letras da banda, arrancando com a frase “Eternity seems long to me” (tendo a concordar, e há um mítico episódio de “Curb Your Enthusiasm” sobre o tema, no qual Larry David se recusa a assumir compromisso para a eternidade com a sua mulher, alegando que nos votos é só até que a morte nos separe) e apoiando-se num refrão carregado de ironia e dualidade – “Appropriate emotions for a homo sapiens to feel in situations like this”. Para o fim, deixei a mais pujante de todas: “Jealous Boy”, um dos singles de lançamento do álbum.
Já tinha gostado bastante de On the Intricate Inner Workings of the System, e Very Human Features serve para mostrar uns Bug Club maduros, mas sem perder a espontaneidade. Onde o anterior era urgente e direto, este novo trabalho encontra um equilíbrio entre forma e conteúdo — reflexivo, melódico e, como o título sugere, profundamente humano. A ter em conta para a altura final do ano de eleições de discos (e pena não terem sido escalados por nenhum festival em terras portuguesas…).