Num momento em que a cultura clubbing enfrenta uma crise de sentido, entre algoritmos, ritmos de produção insustentáveis e a perda de propósito coletivo, nasce a TEMAS Records: uma editora independente com raízes em Lisboa e Paris, que aposta numa visão transformadora da música eletrónica. Fundada por Sara Wual, Paul Cut e Cíntia Aguiar Pinto, a label propõe-se como um organismo vivo e consciente, onde a criação sonora anda de mãos dadas com sustentabilidade, inclusão e curadoria estética exigente.
Transnationality (2025) marca o primeiro capítulo discográfico da TEMAS Records, um EP prensado em Portugal com materiais reaproveitados, distribuído pela Carpet Distribution (Carpet & Snares) e concebido durante uma residência artística de Mayan (Ana Rita Costa) e Sara Wual, em Paris, financiada pelo programa Culture Moves Europe. Assinado por Paul Cut, Flabaire, Mayan e Sara Wual, o disco mergulha em sonoridades intemporais, evocando texturas analógicas e atmosferas de outras eras. Foi no passado 8 de janeiro de 2026, que saiu o link para pré-encomendar o disco na Carpet Distribution.
Mas este projeto vai muito além do som. A TEMAS Records posiciona-se como um laboratório de experiências sensoriais e sociais, promovendo eventos imersivos com visuais sincronizados em tempo real, uma política de bilhetes justa e ambientes inclusivos que desafiam os formatos tradicionais da club culture.
Nesta entrevista exclusiva para o Altamont, falámos com Sara Wual sobre a génese da TEMAS, os desafios de fazer diferente no presente e o que significa, hoje, criar música eletrónica com propósito.
Como nasceu a ideia de criar a TEMAS Records?
Tudo começou quando eu e a Mayan (DJ sediada entre Lisboa e Porto) fomos selecionadas pela Creative Europe/Goethe-Institut para receber financiamento através do programa de apoio Culture Moves Europe, com o intuito de fomentar a colaboração criativa com o meio cultural parisiense, dando origem à co-criação de um álbum de música eletrónica. Depois de cerca de um mês a residir em Paris, parte deste financiamento foi alocado para a posterior criação de uma editora de música, com uma missão específica e objetivos além do âmbito musical. Partindo desse contexto, posteriormente foram incluídos o produtor musical Paul Cut (FR) e a produtora de eventos e artista visual Cíntia Aguiar Pinto, co-fundadora do espaço Rna Studio em Lisboa, que assinam por baixo do projeto como co-fundadores. É lá que está atualmente sediada a editora, e o primeiro lançamento está para muito breve.

O vosso manifesto fala de degrowth e de um ritmo mais lento para criar e consumir música. Como definem “qualidade” neste contexto?
Todas as coisas boas na vida levam o seu tempo, e “a pressa é a inimiga da perfeição”. Ambas as frases se aplicam no processo criativo, e o atual panorama da indústria eletrónica espelha-as de forma quase gritante. A produção excessiva e impulsiva, uma certa desatenção ao tipo de materiais utilizados, um desconhecimento latente (por vezes até, teimosia em ignorar) sobre os seus impactos a longo-prazo, o constante fluxo de informação e estímulos – muito forçado pela forma como funcionam os algoritmos das redes sociais -, acompanhados por uma crescente consciencialização da parte do próprio público, que tem marcado a sua posição face aos problemas de forma mais clara nos últimos anos -; fatores como estes pedem por uma ação consciente e ponderada, que possa testar formas diferentes, mais alinhadas e viáveis, de operar na indústria e potencialmente, mudar alguns paradigmas.
Estabelecendo aqui um paralelismo com a fast-food e a sua conhecida fraca qualidade ao nível nutricional, o mesmo se pode aplicar à música e à forma como é criada, publicada e consumida. A proposta de qualidade deste modelo de trabalho prende-se na possibilidade que passa a ser dada, tanto a artistas como a ouvintes, de se relacionarem com a música, seja do ponto de vista criativo, seja pelo seu consumo, de uma forma mais lenta, mais “cheia”, mais significativa, mais madura. O que eu sinto em relação ao modelo vigente é que andamos todos “a correr” – promotores, artistas, agentes da indústria e até o próprio público, bombardeado de informação que não pediu -, numa pressa e “aflição” que, na verdade, ninguém aprecia, mas também ninguém parece questionar. A qualidade pode passar por aí: uma curadoria meticulosa em torno da estética musical, na própria escolha de artistas para colaborar, e uma desaceleração do próprio processo criativo e de consumo da obra final. Em suma, criar devagar, lançar a seu tempo, ouvir com atenção e carinho. Tudo com pés e cabeça, equilíbrio e bom senso.

Como é que cada um de vocês — Sara, Paul, Cíntia — traz a sua bagagem pessoal para o ADN da label?
Cada um de nós trouxe um bocado da sua experiência derivada de anos de trabalho em áreas específicas, que acabam por se cruzar e complementar. Eu mais na área da produção executiva de eventos de música eletrónica, a Cíntia / RnA na criação de conceitos que cruzam arte e tecnologia, com colaborações inúmeras em projetos pioneiros ou vanguardistas dentro do seu meio, e o Paul com uma carreira notável e inegável enquanto produtor musical e DJ de música eletrónica, bem estabelecido na indústria a nível Europeu. Não foi ao acaso que os convidei para integrar a equipa nuclear da atual TEMAS Records – ambos são profissionais capazes, altamente criativos e proativos e com os quais senti um alinhamento a nível filosófico, ideológico e empático e uma maior compatibilidade ao nível das competências.
Por outro lado, todos somos artisticamente polivalentes, e há uma humildade transversal de aprender em conjunto. Embora existam “departamentos” que estão alocados ou, digamos, mais imputados à responsabilidade direta de uma pessoa específica, todos acabamos por contribuir para o projeto de forma holística, o que se tem revelado uma abordagem muito frutífera tanto a nível criativo como a nível administrativo e operacional. De forma geral, todos trabalhamos com música – uns enquanto DJs, outros na própria criação musical -, o que comporta uma sensibilidade palpável e know-how imprescindíveis para o desenvolvimento da editora.
Acham que a indústria musical, enquanto estrutura global, está preparada para repensar o consumo e produção neste ritmo mais sustentável?
Estruturalmente falando, a forma como o sistema está montado não está feita para um desaceleramento da produção e do consumo, pelo contrário. No entanto, as pessoas (agentes da indústria, público, promotores, espaços, editoras, etc.) parecem-me francamente não apenas receptivas a esse eventual desaceleramento, como quase desejosas pela sua implementação.
As estatísticas não mentem: desde há dois anos para cá todos os meses encerram vários clubes em diferentes pontos do mundo. O consumo de música aumentou, levando a indústria da música a ultrapassar a indústria cinematográfica pela primeira vez na história. No entanto, o que nos diz isto?
Penso que se banalizou muito o consumo de música. As plataformas de streaming, com especial foco no Spotify, têm contribuído para que, por um lado, a música seja amplamente acessível a todos, mas por outro, que o desfrutar dessa música perca parte do seu valor e brilho. Os artistas, muito mal pagos e desvalorizados em prol de alguns entrepreneurs endinheirados duplicarem as suas fortunas. Vários pontos no atual modelo pedem uma mudança de paradigma e de atitude perante a Música.
Sinto que, embora a indústria esteja assente em vários ciclos viciosos e dinâmicas disfuncionais, a mesma, por si só, não tem interesse em mudar – mas as pessoas que nela trabalham, e que com ela se relacionam, estão a dar sinais de que algo tem que mudar.
Tal como em todos os movimentos, alguém tem que ter a coragem de começar, testar novas ideias, aprender com os os erros, mostrar os resultados e, potencialmente, abrir caminho para uma mudança sistémica que extrapole o âmbito estrutural e possa impulsionar evolução ideológica e de mentalidade.
Há outras labels, artistas ou projetos que consideram aliados nesta missão?

Não podemos deixar de referenciar um dos nossos parceiros oficiais, a Grama Pressing Plant. É a única pressing plant em Portugal, e um dos fundadores, o Hugo, tem sido um dos principais agentes no nosso país na frente da pesquisa no mercado mundial para a criação de alternativas verdadeiramente sustentáveis, tanto do ponto de vista ambiental como logístico e executivo, por forma a optimizar os processos de produção em vinil. Quando lhes falámos da missão e motivações da TEMAS Records, prontamente se mostraram abertos em colaborar conjuntamente para nos mantermos a par dos avanços tecnológicos existentes e novas formas de fazer as coisas que priorizassem este Ethos. Nem pensámos duas vezes em avançar com eles para fazer o pressing deste primeiro lançamento, que, por ser feito em Leiria, ajudou ainda mais a reduzir o impacto do transporte dos discos. Foi tudo cuidadosamente estudado e revisto durante meses, de forma a garantir que conseguíamos, à luz do que se conhece e que é possível fazer, reduzir ao máximo a pegada ambiental da produção deste álbum. Para a capa escolhemos papel castanho reciclado e o próprio disco é feito de upcycled vinil, a partir de restos de material em bruto que, se não fossem reutilizados, acabariam no lixo. Investigámos a fundo vários tipos de materiais e métodos de produção, e chegámos todos à conclusão de que, neste preciso momento, não existe, de forma geral e contemplado todas as fases inerentes à produção e transporte, nenhuma forma mais eficiente de reduzir a pegada da produção em vinil, quando comparado com os resultados gerais de uma prensagem em materiais alternativos, como plástico reciclado e biomateriais. Desta forma, também conseguimos garantir a qualidade sonora máxima absoluta do álbum, uma vez que o vinil continua a ser o material que melhor preserva e não compromete a qualidade do som.
No manifesto, mencionam o uso de arte visual em tempo real, sincronizada com a música, e o interesse em integrar IA de forma ética e consciente. Como idealizam esta integração?
Relativamente à potencial integração da IA para empoderar a arte visual nos nossos eventos, desde as fases mais embrionárias do desenvolvimento do projeto que esta tem vindo a ser alvo de um trabalho intensivo de estudo e pesquisa face às várias implicações da mesma, prós e contras da sua utilização, e o impacto que ela causa a vários níveis.
Sendo a sustentabilidade um dos pilares principais do projeto (em todos os aspectos, não apenas relativa à ecologia, mas também à forma como produzimos e lançamos música, e como apresentamos os nossos eventos), numa fase inicial de implementação e lançamento do projeto, sentimos que seria contraproducente fazer uso ativo destas ferramentas quando elas ainda não se encontram optimizadas para serem verdadeiramente vantajosas neste âmbito. Desde os impactos negativos no Ambiente, uso excessivo de água, contribuição para as disparidades sociais e contributo inegável para a proliferação de um crescente sistema Neo Feudalista, observavelmente a emergir gradualmente a nível global, até ao comprometimento do respeito dos direitos autorais dos artistas criadores, e a proteção da sua propriedade intelectual. Não tememos a Inteligência Artificial fora os seus danos negativos e a sua utilização indevida, e acreditamos que a tecnologia pode e deve ser utilizada para beneficiar, amplificar e democratizar a criação artística. Comprometemo-nos em estudar de perto a evolução do crescimento e desenvolvimento desta ferramenta, e a mitigação dos seus impactos negativos, que com o tempo e a evolução tecnológica, poderão eventualmente vir a ser contornados ou controlados. Já estão a ser implementadas na Europa, neste preciso momento, novas políticas e leis relativas à proteção não apenas de dados, mas também da propriedade física e intelectual dos indivíduos e suas extensões.
Não podemos garantir, nem cegamente defender esta mitigação, somos apenas adeptos de um ponto de vista mais otimista que gosta de pensar que o Ser Humano irá conseguir, com o devido tempo e tecnologia avançada, evoluir mais sustentavelmente neste setor. Resta saber se será a tempo.
Neste momento, a IA ainda não está preparada para ser uma ferramenta 100% aliada a nós e amiga do Planeta, respeitadora dos recursos finitos do mesmo e respeitadora dos limites razoáveis à proteção da privacidade e proteção intelectual das pessoas, para não falar das questões políticas associadas ao uso de IA. Num futuro que talvez não seja tão longínquo, prevemos que talvez possa vir a ser possível integrar esta ferramenta de forma sustentável e positiva na cultura underground, em linha com todos os valores que esta defende e pode, se assim o desejar, defender. Para já, tomámos a posição de não fazer uso dela – após sermos apresentados com novos dados e impactos negativos -, enquanto continuamos a informar-nos e a pesquisar o seu desenvolvimento, e isso, por si, só faz parte de um plano de integração ética e consciente da IA na cultura underground.
Relativamente à sincronização da arte visual com a música ao vivo (projetada de forma imersiva e com recurso a trabalhos inteiramente criados e desenhados pelos nossos artistas), vai ser uma das “assinaturas” dos nossos eventos. Através do recurso aos equipamentos necessários para o fazer, com o apoio do RnA Studio em Lisboa, levaremos a cabo experiências de dancefloor que não se ficarão pela qualidade da música, mas também pela qualidade e imersividade da arte visual. Com a combinação das duas, pretende-se criar um espetáculo holístico que eleva ambas as expressões a um nível de storytellers e agentes de consciencialização, com participação ativa do público, afastando ambos os mediums da finalidade de meramente providenciar entretenimento. Tudo será feito por nós, em tempo real, com propósito e mensagem – e é desta forma que prevemos uma integração consciente e ética das artes visuais no meio da cultura underground e clubbing.

Referem um compromisso claro com acessibilidade, diversidade e inclusão, desde os bilhetes a preço social até espaços seguros. Como constroem estes ambientes na prática?
Vamos ter o nosso evento de lançamento muito em breve, em Lisboa. Será lançado, entretanto, nas várias plataformas e redes sociais. Para este primeiro evento, no qual vamos apresentar o disco de estreia da editora, pretendemos testar várias das ideias que temos andado a estudar e a desenvolver, assentes no nosso compromisso com a acessibilidade e a inclusão.
Quando falamos de inclusão, não nos referimos apenas à integração de minorias racializadas ou discriminadas por questões de identidade de género, não menos importantes. Estamos a falar do acesso democrático à cultura, com a criação de vários escalões que possam compatibilizar o valor dos bilhetes com a capacidade financeira de cada pessoa, bem como, de um ponto de vista igualmente ideológico, mas principalmente estrutural, criar condições para que pessoas com mobilidade reduzida ou limitações auditivas também possam participar e sentirem-se bem-vindas. Os acessos ao recinto devem contabilizar estas questões, bem como as actividades oferecidas dentro do evento, que não se ficarão meramente pela música e pela arte visual – pretendemos criar dinâmicas que possam permitir a interação e troca de sinergias e impressões entre várias pessoas, tentando que as diferenças sejam na verdade um ponto de valorização da aprendizagem e de convergência de ideias, e não algo que separa ainda mais os diferentes segmentos de público através das suas vulnerabilidades e particularidades. Queremos questionar os limites da cena clubbing no que toca à criação de espaços verdadeiramente inclusivos e democráticos e utilizar os nossos eventos como uma plataforma de teste para ideias que vão surgindo. Não estamos a avançar com uma postura de “sabendo já tudo”, e sim como aprendizes pela lei da prática e da tentativa-erro, abraçando os resultados que não forem tão positivos como lições, e usando o conhecimento adquirido dessas experiências para continuar a alimentar novas ideias e formas de fazer as coisas. Como um cientista em processo de descoberta, empregaremos a humildade da experimentação e da pesquisa ativa, e o nosso objetivo é trabalhar em rede com vários parceiros para conseguir materializar os cenários que sentirmos frutíferos e relevantes. Afinal de contas, ninguém faz nada sozinho e ninguém sabe mais que os outros; a riqueza consta na ligação de vários pontos, na integração de pessoas e profissionais com distintas áreas de especialização, e na riqueza que traz a combinação de conhecimento cru vindo de diversos âmbitos e áreas de estudo.
Que conselho dariam a outros promotores ou editoras que querem trabalhar estes valores, mas não sabem por onde começar?
Comecem por montar uma equipa forte, sólida e preparada para pôr mãos “na massa” em vários âmbitos – em quase tudo o que são projetos, sejam eles de cariz artístico ou não, os fundadores acabam sempre por se ver a fazer de tudo. Juntem pessoas apaixonadas pelos mesmos valores, que sejam especialistas em áreas distintas e complementares. Não olhem as horas, terminem o trabalho quando estiver feito, e não menos importante – vão buscar financiamento ANTES de lançar o projeto, principalmente se este for indissociável a despesas elevadas derivadas da fabricação/manufatura de produtos, como é o caso de uma editora de música que lança discos de vinil (ou no nosso caso, de amido de milho). Não se endividarem ainda antes do projeto arrancar parece um princípio básico, mas continuo a saber de pessoas que o fazem, por vezes sem o sucesso mínimo necessário para o projeto “descolar”.
Além destes, o conselho mais importante que podemos dar, derivado de experiência própria, é: não cedam às modas nem tentem imitar o que outras pessoas andam a criar. Tirem inspiração, pesquisem bem o(s) mercado(s), alinhem-se com valores vindos de marcas ou projetos que estão a fazer a coisa bem feita. Mas criem com a vossa intuição e olhar único. No longo-termo, a originalidade das ideias, a atenção às necessidades do vosso público, e a honestidade e vulnerabilidade patentes no vosso discurso são os fatores que irão de facto marcar a diferença na subsistência do projeto, mais do que ter muito dinheiro para investir. Nunca percam de vista o vosso “Why” e o motivo real que vos levou a começar o projeto.

Que mensagem gostariam de deixar aos leitores do Altamont — sobretudo aos que procuram novas formas de viver e sentir a música eletrónica?
É maioritariamente para servir este(s) nicho(s) que estamos a criar este projeto. Para as pessoas que pensam não apenas na forma como a indústria da música funciona e como afeta as suas vidas e as de quem nela trabalha, mas que pensam sobre o Futuro, que estamos neste momento a construir a cada momento no Presente. Não fazer nada e cair numa inércia generalizada é o mesmo que apoiar silenciosamente o mau funcionamento do que quer que seja. Qual o caminho que estamos a pavimentar e onde nos vai levar se assim continuarmos?
Qual foi o momento em que a pureza dos eventos de música eletrónica e as raves, enquanto movimentos políticos e sociais de cariz congregador e pacificador, se converteu em fábricas de gerar capital que passaram a financiar guerras e genocídios? Como é que passámos de um movimento coletivo originado por minorias, em prol da integração das mesmas, e com o elevado poder de gerar mudança ao nível social que comporta a união, a empatia pelo próximo e a consciencialização horizontal para ideias específicas… como é que passámos disto, para um ambiente tão frenético, tão baseado na produção automatizada e no consumo desenfreado, que estamos a deixar para trás o que realmente importa, e as suas origens?
Ideologias e posicionamentos à parte, algo deve constar sempre na base da criação artística, e que nunca pode ser esquecido ou deixado para trás – a procura, interpretação e proteção do Belo, do autêntico, e do que queremos preservar. Esta premissa estende-se aos vários âmbitos nos quais a nossa Sociedade assenta, desde a preservação do nosso Planeta, à proteção do nosso património e a priorização de vidas humanas. Não podemos cair no erro de acreditar na ideia da separação, da indissociação entre assuntos ou matérias sociais, da alienação entre povos e na priorização do lucro sobre os direitos humanos. Está tudo interligado, e todos os assuntos são sociais, pois todos contam com ação humana, que por si só não é indissociável da Natureza em si. A criação artística, independentemente do(s) medium(s) utilizado(s), tem não apenas a obrigação, mas também a responsabilidade de refletir as questões sociais e os problemas do seu tempo, bem como deve assumir um papel ativo no reconhecimento e consciencialização dessas mesmas questões. A arte é, e sempre foi, uma ferramenta de resistência, de legitimação de movimentos sociais, e de debate de ideias – e no dia em que deixar de o ser por completo, a comunidade artística terá perdido o seu verdadeiro contributo e impacto no meio social, e terá ficado atrás de outras indústrias.
Neste contexto, os consumidores destas indústrias – as criativas, e uma vez mais, independentemente dos géneros, mediums e meios utilizados para expressar ideias e reconhecer questões importantes – detêm um papel fundamental. O Público tem nas suas mãos o poder de escolha, de apoiar os movimentos e artistas que melhor ressoam com as causas que pretendem defender ou debater, bem como têm o poder de os boicotar por completo. Sem o voluntário e consciente apoio e consumo do Público, de todos vocês que geram os fundos absolutamente necessários à subsistência financeira e sobrevivência conceptual destes projetos independentes, esta indústria “treme” e vacila. Se escolherem não ir a clubes e bares para dançar, estes enfrentarão uma falência longa e dolorosa. Se escolherem não frequentar museus, estes enfraquecerão financeiramente, com especial foco nos que são financiados pelo Estado, cujas verbas são bastante finas por si sós. Se escolherem não comprar música e apenas utilizar o Spotify, muitos artistas nunca conseguirão continuar a criar e ter um papel ativo na indústria. Tudo o que consumimos, desde a comida até o que vestimos, o que escutamos e lemos, tem um impacto direto na nossa maneira de viver e experienciar o Mundo, e logo, no que emanaremos para ele em consequência. Escolham bem, com a consciência que o que consomem e onde investem a vossa energia e tempo, é o que vos define no Mundo, e é o que estrutura o Mundo à vossa volta.