Há discos–filmes-concerto como “Stop Making Sense” que acontecem uma vez na vida, parecendo existir fora do seu tempo, mas que são tão vivos que escapam à data de estreia.
Los Angeles, Dezembro de 1983 – a tour dos Talking Heads, no seguimento do seu recém-lançado Speaking in Tongues chega à cidade, mais especificamente ao Pantages Theatre em Hollywood. Durante esses três dias, o espectáculo idealizado pela mente artística de David Byrne será filmado para a posterioridade, pela lente de um tal de Jonathan Demme, realizador já com algum nome na praça, mas ainda fora do mainstream, e que encaixa como uma luva na banda que vai filmar.
A performance começa desarmada: David Byrne entra sozinho para um palco vasto e vazio, apenas com uma guitarra e um gravador de cassetes. Põe a cassete a tocar e entra uma drum machine de fundo. Arranca a icónica “Psycho Killer” — voz contida nas palavras ameaçadoras que são ditas, o público de súbito acordado. É o contraste que marca logo: o minimalismo que nos é apresentado, perante a riqueza sonora da banda que bem conhecemos.
À medida que as luzes se vão acendendo, junta-se o resto da banda, entram os sintetizadores, as percussões, a bateria, o baixo que pulsa, as guitarras que se entrelaçam. “Burning Down the House”, “This Must Be the Place (Naive Melody)” — canções que no estúdio são já densas, mas ao vivo ganham uma nova dimensão: cada instrumento, cada backing vocal, cada gesto de Byrne é amplificado e contagioso. Os Talking Heads e os músicos que ajudam a compôr o espectáculo enchem o palco, não apenas com a sua exuberante técnica, mas sobretudo com muita energia, claramente dopados pelo poder da música que estão a replicar naquele momento.
O filme é um objeto cinematográfico notável, e por alguma razão é tido como um dos melhores dentro deste conceito: a câmara vai onde a música exige — capta o suor, o riso, o corpo em movimento, o público a reagir —, mas sem nunca se perder na produção. A luz, os ângulos, o som: tudo serve à música, tudo se sacrifica ao acto de escutar e ver os músicos a exibir a sua arte em palco. Não há truques que distraiam; há simplicidade orquestrada. E esse é o milagre – como transformar uma sala de concerto numa comunhão de gente a saborear o momento. Isto é especialmente sentido em “Take Me to the River” e “Crosseyed and Painless”, vibrantes e memoráveis.
Se a emoção for o que mede o sucesso de uma obra, em Stop Making Sense ela existe de sobra. Dá vontade de dançar (como aconteceu em vários cinemas por onde o filme passou novamente para celebrar o seu 40º aniversário, facto que serviu de desculpa para o termos como objecto num passado episódio de Rádio Clube Altamont), dá vontade de sentir-se parte daquilo, de juntar as mãos. Há humor (Byrne a dançar com aquele icónico casaco gigante), há tensão, há catarse — e há também momentos de doçura, de contemplação (como em “Once in a Lifetime” ou “Heaven”) que entram sem aviso e arrebatam-nos.
Stop Making Sense disco, resultado do concerto filmado, não é só um catálogo de grandes músicas dos Talking Heads, é uma viagem sonora que mostra a essência da banda e toda a sua inventividade. Um clássico que recorda que a música, experienciada ao vivo, é uma poderosa fonte de juventude.