O título desta prosa, provocatório, reconhecemos, não pretende diminuir fenómenos musicais recentes – a ideia é elevar os Suede, e Brett Anderson em concreto, a um campeonato onde só os verdadeiros ícones se mostram.
Numa sexta-feira cinzenta em Lisboa, com a chuva a cair persistentemente, incautos haveria que, do lado de fora, não faziam ideia do calor que se instalou dentro do Campo Pequeno. A lotação para voltar a ver os Suede em nome próprio em Lisboa não estava lotada, mas a plateia que marcou presença trouxe consigo algo mais raro do que números: trouxe respeito, entrega e uma maturidade que transformou o concerto num verdadeiro encontro entre iguais.
A banda apresentou-se, como expectável, com uma força atual que desmonta qualquer ideia de nostalgia confortável. Longe de serem apenas um nome histórico, os Suede mostram-se hoje como um organismo vivo, pulsante, relevante. Há uma tensão constante entre passado e presente, mas nunca tal se torna um exercício de autocelebração — é antes uma reafirmação. Estão aqui, e ainda importam. Em disco já o sabíamos, com uma ‘segunda vida’ de álbuns de grande qualidade, e com os dois mais recentes – “Autofiction” e “Antidepressants” – a serem o centro musical da noite.
O alinhamento foi, portanto, revelador. Menos de metade das canções veio da chamada ‘primeira fase’ da banda, uma escolha que poderia soar arriscada, mas que acabou por ser um gesto de confiança na discografia recente e, sobretudo, no público. E esse público respondeu à altura, acolhendo os temas mais novos não como interrupções, mas como capítulos naturais de uma narrativa que continua a crescer.
Sim, “Trash”, “Animal Nitrate” ou “So Young” são portentos pop/rock ainda hoje imaculados, e foram tocados com a destreza de sempre. No campo das surpresas, destaca-se a inclusão de três temas (“Indian Strings”, “Can’t Get Enough” e “Everything Will Flow”) de “Head Music”, disco divisivo, e uma versão piano e voz de “Still Life”, ainda hoje um dos momentos mais gloriosos dos londrinos – o Porto, na noite anterior, teve “The Wild Ones” em viola e voz. Impossível escolher uma em detrimento da outra.
No centro de tudo, Brett Anderson. Este não é apenas um ‘frontman’ carismático, mas uma presença física e teatral quase hipnótica. A sua entrega não parece conhecer desgaste: salta, contorce-se, mergulha na multidão (duas vezes!) com uma intensidade que desafia o tempo. Há algo de profundamente visceral na forma como ocupa o palco — como se cada canção ainda lhe custasse, como se ainda estivesse a provar alguma coisa. E talvez esteja: que o corpo pode envelhecer, mas a urgência não.
Musicalmente, a banda surge coesa, afiada, com uma confiança que só décadas de estrada conseguem moldar. As guitarras mantêm aquele brilho cortante e melancólico, a secção rítmica sustenta tudo com precisão e nervo, e há uma sensação clara de que cada elemento sabe exatamente quando avançar e quando recuar. Como ponto menos positivo, há que reconhecer que a acústica do Campo Pequeno não respondeu em muitos momentos à delicadeza furiosa das músicas dos Suede. Para quem não conhecesse os temas na plenitude, tal terá sido manifestamente evidente. Outro ponto menos positivo, mas mais entendível: menos de hora e meia de concerto parece pouco no papel, mas a intensidade de toda a noite (e de uma digressão que prossegue Europa fora) funciona como resposta bastante certeira a esta semi-angústia.
Lá fora, a chuva continuava a cair. Cá dentro, porém, criou-se um microclima emocional onde o tempo parecia suspenso. O Campo Pequeno não estava cheio, mas estava certo — preenchido por quem realmente queria estar ali. E isso fez toda a diferença.
No fim, ficou a sensação de ter assistido não a um exercício de memória, mas a um ato de afirmação. Os Suede não regressaram para serem lembrados. Vieram para lembrar que nunca deixaram de ser essenciais.
Setlist:
Disintegrate
Antidepressants
Trash
Animal Nitrate
The Drowners
15 Again
Pale Snow
Indian Strings
Filmstar
Can’t Get Enough
June Rain
She Still Leads Me On
Shadow Self
Trance State
Still Life
Everything Will Flow
So Young
Metal Mickey
Beautiful Ones
Encore:
Dancing with the Europeans
Fotografias de Gonçalo Nogueira












