Na sua primeira tour europeia, os SPIRIT OF THE BEEHIVE mostraram-se perante uma ZDB bem composta e conhecedora das suas invenções sónicas.
Estava com sono. Tinha acordado às 6h10, voltas na cama até perceber que não ia voltar a adormecer, levantar na penumbra total destes últimos dias antes de mudança de hora é bastante depressivo. Acabei de jantar e estava literalmente com zero bateria corporal, mas não podia deixar o Altamont a braços com uma crise institucional, de falhar com acreditação dada. Meti-me na mota e consegui a proeza de ir dos Olivais ao Saldanha, sem parar num único semáforo vermelho. Entendi como sinal do Universo a dizer que tomei a decisão certa.
Conheci os SPIRIT OF THE BEEHIVE em 2021, após o lançamento de ENTERTAINMENT, DEATH, disco que acabou até por entrar no top Altamont desse ano, muito à custa do meu lobby por ele. Foi tema de debate num episódio do nosso podcast, dei-lhe bastante atenção nesse ano, devido sobretudo à capacidade inventiva da banda, na sua demanda por subverter a pop. E esta foi a palavra que mais me ocorreu na noite passada na Galeria Zé dos Bois, espaço que estará habituado a subversão em forma de música, mas que quem vai lá com menor frequência, se esquece facilmente.
E não haverá melhor forma de ter subversão do que ouvir Francisco Couto (HIFA, baixista dos bbb hairdryer, nëss, trio live de Maria Reis) vestido como SAD, a carburar no seu baixo uma versão do hit pop dos 90s “Torn”, de Natalie Imbruglia. Isto aconteceu, sim. Mesmo no fim do seu concerto denso e hipnótico, no palco só um vislumbre de Francisco no meio do fumo, e na dúvida do que fazer nos seus cinco minutos finais, veio a pop em registo noise e distorção.
Sobe então ao palco a banda de Filadélfia, preparam instrumentos e após um “Can we just start?” lançam-se de cabeça na sua manta de retalhos musical, um indie-pop-shoegaze-neo-psicadélico, onde, em cada música, e a cada momento, tudo pode acontecer. Sentimo-nos ao volante num jogo de condução de carros de rally, sem navegador a anunciar as curvas e contracurvas que aí vêm. Ninguém avisa de um hard left ou um soft right ou mesmo um U-turn right in 10 metres. Quando o corpo se está a começar a habituar a uma cadência, eis que outra lhe passa à frente e assume a liderança. E o mais espantoso de tudo é que, de alguma forma, as peças até encaixam.
Dei pouca atenção ao mais recente You’ll Have To Lose Something (2024), mas mesmo já não os ouvindo há algum tempo reconheci as excelentes “THE SERVER IS IMMERSED” e “I SUCK THE DEVIL’S COCK” do anterior registo, que também foram as mais bem recebidas pelo público. Nem faz muito sentido destacar músicas específicas porque a banda trata de as colar, entre fragmentos de sons dispersos, efeitos, e uma constante utilização de pedais e feedback.
Numa noite quente de Outono, não eram precisas mantas para nos confortar, mas a manta de retalhos sonora que os SPIRIT OF THE BEEHIVE nos providenciaram soube que nem ginjas.
Fotografias: Rui Gato
























