E à quarta, foi de vez! Por duas noites, atravessámos a Vasco da Gama para nos deleitarmos com a esplendorosa vista da frente ribeirinha do Montijo e com as iguarias musicais escolhidas a dedo pela organização do Sons no Montijo.
Dia 1
Ainda é de dia quando Rodrigo Vaiapraia, chica, April Marmara e Candy Diaz sobem ao palco. Confesso que estranho a luz, e estranho sobretudo a distância ao palco. A última vez que os tínhamos visto tinha sido nas Damas, onde quase lhes poderíamos tocar! A falta dessa intimidade, é no entanto, mais do que compensada pela grandeza do som! Não se enganem, o quarteto não perdeu o seu encanto punk low-fi … falo de um som maior porque se ouviu melhor e mais longe. A entrega continua vibrante e emotiva, impregnado o som da banda com uma personalidade cada vez mais vincada, cada vez mais cicatrizada, cada vez mais viciante.
Editado há poucos meses, Alegria Terminal serviu de mote e dominou o alinhamento. O disco não tem parado de tocar cá em casa, e dei por mim a, permitam-me o trocadilho fácil, sing along a “sing along”, “Eu quero, eu vou”, “Kolmi” ou a chapada da “Corta Unhas”. No meio, houve espaço para clássicos como “Rabo” ou “Sinos”. Agora só falta descobrir onde os poderemos encontrar novamente, para voltar a cantar com eles.
Foi com ainda mais contentamento do que espanto que vi a notícia que as Fin del Mundo viriam ao Montijo. E foi essa, admito, a razão principal para atravessar o Tejo duas noites seguidas. Hicimos crecer un bosque foi um dos meus discos preferidos de 2024 e continua a tocar com regularidade, sobretudo no velho rádio do carro!
Julieta Heredia, Julieta Limia, Lucía Masnatta e Yanina Silva são quatro moças oriundas da Patagónia, que por estes dias que correm, já não é propriamente o fim do mundo, sobretudo quando há editoras independentes com vistas tão largas e ouvidos tão apurados como a Spinda Records. As argentinas oferecem-nos uma mistura empolgante de tonalidades shoegaze, indie rock e dream pop servida em doses substanciais de belas melodias, harmonias vocais estrondosas (com o destaque para a fantástica “Vivimos lejos”) e delírios psicadélicos.
O problema das “cenas” é, a partir de certa altura, os nossos ouvidos começam a ficar saturados e a misturar tudo. Receio que a vaga post-punk esteja quase a entrar nessa fase, pelo menos no que me diz respeito. The 113 trazem de Leeds o EP To Combat Regret na bagagem e a sua sonoridade aproxima-se das franjas mais “pesadas” da referida cena. Ditz, Heavy Lungs e Cassels lançaram discos novos, e muito interessantes, no primeiro semestre de 2025, dificultando e muito a concorrência. Ainda será cedo para perceber onde chegarão estes The 113, mas as indicações que deixaram no Montijo são positivas.
O quarteto britânico que assumiu o lugar cimeiro da quarta edição dos Sons no Montijo veio com uma bagagem bem mais robusta e com muito mais certezas no público que entretanto foi compondo o recinto. Apoiando-se principalmente em temas do popular Sun Structures (de 2014), o som dos Temples até pode partir de uma base psicadélica – etiqueta que os parece perseguir – mas depressa fogem para uma musicalidade mais ampla e mais rica, próxima de um pop rock que balança entre o alternativo e o mainstream. Para um observador menos próximo, como eu, a banda parece sobretudo focada em colocar a plateia a mexer, e se possível, mesmo a dançar! E nesse campo, os Temples superaram todas as expectativas … o público não parou, nem mesmo quando a eletricidade veio a baixo – apagaram-se as luzes, calaram-se os amplificadores, mas continuou a música nas palmas e nas gargantas dos fãs. Belo!
Dia 2
Visto daqui, o reduzidíssimo rácio média de idades da banda / tamanho do palco parece não afectar os ânimos do quarteto montijense. Os nervos devem lá estar, acredito, … mas não se notam, dada a pica e a alegria de estar lá em cima. Com o EP de estreia quase aí fora, os Big Lie trazem-nos um Rock musculado apoiado em jogos de contrastes. As paisagens lentas e melódicas vão servindo para acumular tensão, periodicamente libertada em belos momentos de velocidade abrasiva, sublinhada pela distorção e pela poderosa contribuição vocal do baterista.
O meu primeiro contacto com o quinteto de Sintra não foi fácil. O concerto não terá corrido assim tão bem ou fui eu que fiquei confuso. A sonoridade dos Them Flying Monkeys não é de rápida absorção, exige tempo e alguma dedicação. Muito recomendados por um camarada da fotografia, voltei a insistir aquando do lançamento de Best Behavior no início do ano. Os pontos de contacto com a energia dos primeiros discos dos Idles é a primeira a aparecer, mas os Monkeys enriquecem o post punk ora com guinadas (ainda) mais pesadas, ora com tonalidades eletrónicas a roçar o industrial. O concerto que deram na Musa, há poucos meses atrás, serviu para dissipar as poucas dúvidas que restavam. Gosto da música dos moços … mas criou outra – “eh, pá … isto foi bom, mas quero vê-los num espaço maior, onde o som possa respirar!”
A malta dos Sons no Montijo fez-me a vontade e eu estou mais do que agradecido. Tal como no disco “Beautiful Mess”, abre o concerto, a passos lentos e cheios de efeitos … antes dos primeiros breakdowns nos meterem na ordem e criarem os primeiros arrepios da noite! A banda toca Best Behavior em versão integral, alterando apenas a ordem dos temas … talvez com o intuito de gerir as energias em cima do palco e numa plateia que vai aumentando em número e em movimentação. Luís Judícibus (voz e guitarra) é um frontman e tanto. Enche o palco e não se deixa intimidar pela altura distância do mesmo ao público. Durante “Les gens sont fous, les temps sont flous” – cover de Jacques Dutronc – junta-se à mole humana e espalha sorrisos e energia! Concertaço!
Não é que o som dos Máquina seja propriamente simples ou acessível, mas há um chamamento direto do ritmo meio motorik meio dance que nos atinge dos dedos dos pés às pontas dos cabelos, que não nos permite estar sossegados por um minuto. Desde aquela tarde de fevereiro de 2023, já é a sétima vez que os vejo. E não cansa! Eles não se cansam de tocar e eu não me canso dos ouvir, de dançar e de vibrar.
Ainda que a tentação seja juntar os Cucamara à referida cena post-punk e despachá-los com a introdução dedicada aos The 113, a verdade é que senti na sua atuação o mesmo desvio que registei no estimulante EP Laughing, editado em maio deste ano. É certo que o quarteto de Nottingham, que tem optado por edições mais curtas (EP e singles) e em atuações ao vivo, talvez numa procura de apurar a sua identidade musical, partilha afinidades com a sonoridade que vai dominando o indie britânico deste início de década. No entanto, há um desvio progressivo para uma estética, quem sabe, até um pouco mais retro … como se quisessem ir perdendo o post e ir juntando o rock. Presente-se um afastamento dos clubs e uma aproximação aos pubs, um certo ambiente de punk rock antémico nas suas novas composições, dando mais espaço para os ritmos respirarem e juntando coros à força das guitarras. A seguir, definitivamente!
Para fechar a sua quarta edição, a organização dos Sons no Montijo escolheram The Legendary Tigerman e a julgar pelo público que se foi adensando junto ao palco ao longo da noite, às respectivas T-shirts e à atmosfera de festa, foi uma aposta ganha. Confesso que não sou um profundo conhecedor do atual projeto de Paulo Furtado. Tenho acompanhado com alguma distância os seus discos e apesar de apreciar muito a estética e a atitude Rock’n’Roll, alimentadas por uma escolha deliciosa das covers, ainda não senti o chamamento para entrar de forma mais profunda na sua obra. Estas linhas servem apenas de aviso prévio para uma análise mais superficial do que aquela que o(s) artista(s) e o belo espetáculo que deram mereceriam.
Acompanhado por Sara Badalo (voz e maquinaria) e Mike Ghost (bateria), Furtado visitou o seu robusto catálogo com destaque para Femina (a celebrar os 15 anos da sua edição) e a abordagem eletrónica de Zeitgeist, isto para além das referidas covers! Como diz o povo, foi bonita a festa! E muito!
Fotografias: Rui Gato






















































