No último dia, o headbanging dominou, houve tempo para a dança … mas foram os Slift que fizeram levitar o Sonic Blast!
Headbanging
A bancada do merch dos High on Fire teve fila durante uma boa parte do dia, contribuindo para a ideia de que uma das referências principais do Stoner Metal terá sido o principal chamariz do último dia do festival. O trio de São Francisco não quis decepcionar os fãs e pagou a devoção em poder … talvez até demais, dizem os meus ouvidos que me obrigaram a recuar até ao fundo do recinto para conseguir sentir melhor a experiência. Matt Pike e seus comparsas trouxeram uma setlist de luxo que passou pelos clássicos e pelo novíssimo Cometh the Storm e arrasaram!
Coube a uma jovem banda do Texas, na sua primeira digressão europeia, o brinde, ou a fava, de pegar no festival após a avalanche sónica dos High on Fire! Terá sido precisamente essa juventude e a respectiva pica que tornou a atuação dos Fugitive tão pujante! Apoiada numa mistura apunkalhada de thrash e death metal – a fazer lembrar os saudosos Sepultura da era Beneath the Remains / Arise, a banda agarrou o público de forma singular – mosh, circle pits, crowd surfing … you name it!
Na mesma toada, mas com ainda mais … tudo, os Cobrafuma foram a última banda a atuar nos palcos principais (e a última que vi). Melhor forma de fechar o festival, e de combater a depressão da despedida, não poderia haver. Andava há praticamente um ano para os conseguir apanhar, e as minhas expectativas não saíram goradas, bem pelo contrário. Que pedalada! Thrash cantado e sentido em português com sotaque e alma do norte! Já passava das duas da manhã, mas ninguém vacilava e os crowd surfers aterravam no pit num ritmo que faria inveja ao aeroporto de Lisboa.

Na mesma categoria de peso, mas em velocidades bem mais moderadas, os americanos The Obsessed, liderados pela lenda Scott “Wino” Weinrich, pegaram em vários temas da sua carreira com mais de 30 anos – com várias pausas pelo meio, é certo – incluindo do novo Gilded Sorrow. Uma verdadeira aula de cátedra de como tocar Doomy Hard Rock ajudou, e de que maneira, a aquecer o dia!
Mantenhamos “Lenda” como tópico, elevemos mesmo um pouco esse nível e prossigamos com uma lenta e progressiva modificação de matizes do movimento corporal … e passe-se à atuação de Brant Bjork Trio. O currículo de Bjork é tão extenso e impressionante que esgotaria os caracteres que tenho disponíveis para esta modesta crónica. Portanto, quem não conhecer, por favor, investigue!
Alguém ao meu lado repetia que a voz de Brant Bjork era um pouco para o monocórdica! Não vou rebater, mas sim propor uma expressão e uma visão alternativa … e se, em vez de monocórdica, dissermos da cor do deserto? E, se experimentássemos ver aquela voz como o aliado perfeito do groove que este trio transpira num processo de hipnose musical transcendental? Demasiado codificado? Demasiado pretensioso? Sim! Têm razão, mil perdões! Tento doutra forma, então! O concerto de Brant Bjork e seus comparsas foi o equivalente sónico de uma boa puxada do cachimbo da paz! Aquela guitarra mágica, aquele baixo demoníaco e aquele ritmo viciante foi baixando a pulsação, relaxando os músculos e arredondando o movimento. E, sem darmos por isso, do headbanging passámos à dança.
Dança
A Brant Bjork seguiu-se outro trio americano, de seu nome Night Beats, que ao fim do primeiro tema, tornou o recinto do Sonic Blast no local mais cool de todo o universo. Foi como se entrássemos de rompante num filme do Tarantino. A estética, a batida R&B vintage e a fazer vibrar o solo, o tom da guitarra e a sensibilidade indie psicadélica, tudo ali junto a absorver-nos por completo! Um dos melhores concertos do dia, na minha opinião!
É possível vermos um recinto pejado de wild rockers a bambolear-se ao som de ritmos anatolianos? No Sonic Blast, sim … é possível e eu vi! A atuação da turca Gaye Su Ak Yol e dos dois músicos que a acompanharam teve esse condão. Eram quatro e meia da tarde, sol a pino, e foram poucos os que se refugiavam à sombra das barracas da cerveja.

Saltemos até ao outro extremo do dia, até à uma da manhã! E já que estamos a saltar … continuemos, porque é isso que pede o garage punk cheio de estamina dos canadianos Wine Lips! E, outra vez, há quem salte em frente ao palco e há quem dance por todo o recinto!
… e os Slift!

As minhas expectativas eram altas, confesso. Ilion é até ao momento um dos meus álbuns preferidos de 2024! Agora, não estava minimamente preparado para ser siderado. Aqueles três primeiros temas ali no pit, a tentar arranjar concentração para fotografar enquanto absorvia aquela brutalidade sónica … ainda nem consigo perceber.
Ainda não consigo perceber … só me vem à cabeça, o melhor space rock dos Hawkwind, o melhor prog psicsadélico dos Pink Floyd e a pujança melódica dos seus congéneres Gojira. Isso tudo e aquele fuzz do outro mundo. Somo as partes e não consigo chegar lá ainda, deve-me estar a faltar qualquer coisa … outra referência, outro algoritmo, não sei!
Sei que levitei!























































