Quatro anos depois de Canções do Pós-Guerra, Samuel Úria lança hoje o disco 2000 A.D. .O Altamont sentou-se à conversa com o artista para falar sobre o disco, o processo criativo, as colaborações e o seu novo desafio para 2025, os Coliseus.
Altamont: Quatro anos desde o álbum anterior Canções do Pós-Guerra, foi vontade tua ou mais uma vez cumpriu-se a “maldição” dos discos anteriores? (para os leitores do Altamont mais desatentos à carreira de Samuel Úria os dois últimos LP do artista tiveram demoras no lançamento)
Samuel Úria: Os outros discos tiveram a malapata de serem feitos e depois demorarem muito tempo a sair, este demorou mais a ser construído. Para já, fiz um ligeiro compasso de espera para receber um apoio da SPA para fazer este disco, mas acabou por tornar-se um compasso de espera maior. Quando eu fiz a descrição do que queria, na proposta à SPA, eu tinha intenção de neste disco, de alguma forma, contrariar o anterior que era um disco um bocadinho mais triste, apesar de não ser todo. Em algumas coisas era mais soturno, até na capa. Eu queria que este fosse o contraponto, queria que fosse um disco mais alegre, um disco de viragem.Quando essa proposta foi feita estávamos ainda durante a pandemia, mas havia já a perspetiva de que fosse diminuir, eu pensava que isso ia condicionar-me o suficiente para poder fazer de facto um disco mais alegre. E então, quando em 2022, eu faço uma espécie de retiro em Água de Madeiros para atacar o disco todo e fazê-lo de uma ponta à outra, apercebi-me que estar a fazer um disco alegre nesta altura, ou 100% alegre, ou até mesmo com uma temática festiva que era a intenção, ia ser um exercício forçado, então houve muitas canções que eu fui registando. E escrevi muitas coisas, acumulei material, acumulei ideias, mas nada daquilo me suscitava a ideia formada e concentrada de um núcleo de canções que eu quisesse apresentar como disco. Andei a bater com a cabeça nas paredes, porque as canções que eu ia fazendo estavam um bocadinho desagregadas umas das outras e eu tenho esta estupidez conservadora de querer continuar a fazer discos coesos, mesmo quando hoje em dia o consumo de música já não suporta tanto este conceito.Até que o ano passado, há coisa de um ano, escrevo a canção “2000 A.D.”, faixa título e a primeira canção deste disco. E de alguma maneira reconheço ali, não só algumas ideias que podia ir buscar a canções que já estavam feitas, que estavam na gaveta e que podiam estar ali consagradas mesmo que não com a mesma temática, aquilo que seria a casa comum de várias temáticas que podia ter ali, como também me motivou a escrever canções novas. Então, a partir desse “2000 A.D.”, ou seja, desde Outubro/Novembro do ano passado até meados de Junho ou Julho, escrevi várias canções, recuperei outras, reformulei algumas das que já estavam feitas. Depois foi durante as férias, com alguma sofreguidão, ver quem é que tinha disponível para gravar comigo e em muito pouco tempo este disco foi gravado.
Altamont: “2000 A.D.” parece um nome saudosista, mas ao ouvir a canção que dá nome ao disco também nos parece uma canção de esperança. Qual é a mensagem que procuras passar com este título para o disco?
Samuel Úria: A música tem uma mensagem, mas também de alguma forma funciona como uma declaração de intenções que é mais ou menos impercetível. Tem a ver com as canções serem reflexo de uma análise que eu faço do presente e é um presente que me leva a prever algumas coisas que podem ou não acontecer, mas também leva a fazer o rescaldo daquilo que foi o passado que eu vivi até aqui. O passado que me antecede, mas condiciona as minhas vivências até aqui e as e as canções, tirando se calhar a “Xico da Ladra” e a “Kuchisabishii”, mas também nelas eu consigo estabelecer uma ligação direta a isso, passa um bocado por essa visão de fazer uma análise, fazer uma introspeção, de falar daquilo que me desilude, mas também pormos sempre no epicentro da desilusão. Ou seja, perceber que se as coisas não estão como devem ser, estou a desiludir. Tem também a ver com as minhas próprias percepções às vezes infantis e ingénuas de uma espécie de comodismo com alguns dos valores que eu achava que eram inabaláveis e que estão a ser atentados de alguma forma. Também uma crítica a algum facilitismo com que manuseamos a verdade no sentido em que se nós acreditamos que uma coisa é o bem, às vezes submetemo-nos também a não questionar algumas das verdades que nos são oferecidas ou nós próprios a fornecê-las de uma forma um bocadinho adulterada, conforme o que nos favorece. Mas tem tudo um bocado a ver com o tempo, com a minha localização. Não é que eu me sinta um cronista dos meus dias, mas vou sendo um cronista da minha própria existência. Faço à análise como as coisas passaram, e se calhar aquela ideia de progresso que estava cristalizado no ideal do ano 2000, como é que isso constituiu para uma desilusão? E como eu me posiciono em relação a essa desilusão?

Altamont: Como é o processo da criação do disco? Já te ouvi dizer em algumas entrevistas que é uma coisa que sai mesmo do corpo. Como se fosse físico, certo?
Samuel Úria: É sim, mas normalmente, embora isso aconteça, as canções com as quais eu me combato mais, neste caso, neste disco, aconteceu com mais do que uma, mas sobretudo com “Um Adeus Português”, são batalhas travadas num curto espaço de tempo. Este terá sido o disco em que a primeira canção e a última distam mais em termos cronológicos. Já aconteceu num disco lembrar-me que tinha uma canção muito antiga e ir buscá-la, mas estou mesmo a pensar em canções que estavam a ser escritas. Se apenas pensar em canções feitas e pensadas para o mesmo disco, este terá sido o que demorou mais tempo, não tanto pelas batalhas das canções especificamente, mas mais pela questão conceptual de ter canções que estivessem debaixo de uma mesma alçada e que só foi desbloqueada com aquela primeira canção de “2000 A.D.”.
Altamont: Dizes que há um fio condutor no disco, mas eu também noto que as canções são todas muito diferentes, é um álbum bastante heterogéneo, tanto musicalmente como nas letras.
Samuel Úria: Sim, sim, é verdade.
Altamont: E não tens receio de apresentar canções sobre o 25 de Abril, com muitas alusões religiosas, ou até mesmo um tema com uma referência muito pessoal como o “Xico da Ladra”? Nunca pensaste que ao teres temáticas mais mainstream poderias chegar a mais público? Com a colaboração com a Joana Almeirante, por exemplo, chegaste a mais pessoas, agora já todos ouviram falar do Samuel Úria. Já pensaste seguir esse caminho?
Samuel Úria: Por muito que por vezes me passe pela cabeça, porque estrategicamente repercute para a parte financeira, o que podia ser vantajoso, é uma ideia que desaparece quando eu faço aquela espécie de retiro para escrever canções… esqueço-me. Mas até pode ser uma má ideia, porque de alguma maneira o público que se consolida à minha volta também se pode sentir desiludido. Tanto pela questão estética, de repente estar a fazer uma canção que os desagrada, como até pela questão, às vezes conceptual, de perceber que muitos dos gostos, e em Portugal isso acontece, fazem-se a favor, mas também contra. Não reprimo essa ideia porque eu gosto de coisas mainstream e há coisas que eu gosto bastante, mas eu não só não reprimo essa ideia como depois sou bastante permeável quando acontecem convites de pessoas que estão num patamar de público muito superior ao meu ou quando têm uma sonoridade que ainda não conquistou o público, e estão em vias disso, porque estão a fazer música que neste momento é bastante comercial e quando eu digo comercial não há nada pejorativo, quer dizer, até os Beatles eram comerciais. O exemplo da Joana Almeirante quando propõe um dueto, aquilo que me leva logo a aceitar é uma desconfiança e não é uma desconfiança de não estar a confiar nela, mas por questionar a mim próprio, porquê? Porque é que ela me convida a mim, e percebo. Nós temos muitos amigos em comum, amigos da música em comum, e eu já a conhecia. Depois também há esse lado que me deixa bastante agradado de perceber que embora eu não faça canções mainstream, há muita gente do mainstream que confessa que gosta das minhas coisas, pessoas que me piscam o olho e que às vezes querem fazer colaborações e eu cedo a essas colaborações e aí sinto-me a desfazer essa curiosidade. Não deixa de ser a minha carreira, mas está fora do meu espólio musical ou da minha manifestação musical mais direta.
Altamont: O produtor volta a ser o Miguel Ferreira, em equipa que ganha não se mexe?
Samuel Úria: Não sei se é uma questão ganhadora. Teria de ser esclarecido sobre o que é que é o lado ganhador. Existe, claro, uma colaboração de sucesso. O primeiro disco que eu faço com o Miguel, é o Carga de Ombro, que é se calhar o disco que mais sucesso que tenho na minha discografia. Não sei se é o meu melhor disco, mas foi uma colaboração que eu gostei tanto que quis repetir e logo a seguir de termos feito o disco o passo seguinte da nossa colaboração foi um EP chamado Marcha Atroz. Que foi das melhores experiências que eu tive em termos de gravação e em termos de colaboração com outra pessoa, com o input que ele dá, com a tradução que ele fez das minhas ideias, eu percebi que eu queria fazer ainda mais coisas com o Miguel. E ainda não esgotei a minha a minha amizade com o Miguel, essa tornou-se inesgotável. Eu acho que vamos ser amigos para sempre e a nossa parceria ainda tem coisas a dizer, há construções que estão a ser feitas e há desafios novos. O Canções do Pós-Guerra trouxe novos desafios, trouxe novas dificuldades, trouxe até dificuldades à nossa parceria, porque eu estava a querer ir para um lado, que era uma coisa que nós ainda não tínhamos explorado e não foi fácil para o Miguel entender algumas das coisas que eu queria dizer. Neste disco, acho que tivemos em harmonia, como também tínhamos estado no Marcha Atroz. Eu deleguei muito trabalho para o Miguel e ele foi o melhor a entender o que eu queria dizer e foi o melhor a não entender as coisas que eu não devia ser entendido. O trabalho dele foi mesmo precioso.

Altamont: Já nos habituaste a colaborações nos teus discos. Neste tens a Margarida Campelo e a Carol. Como chegaste até elas?
Samuel Úria: Eu conheço-as há já algum tempo. A Margarida há mais, claro, e musicalmente também a conheço há mais tempo, mas com ambas havia muita vontade de fazer qualquer coisa, diversificando também a minha panóplia de colaboradores. Eu gosto sempre de ter gente que eu aprecio musicalmente a participar nos meus discos. E então a Margarida surge porque a canção estava cantada de uma forma atabalhoada, precisava ali de um bocadinho de ordem. Precisava de qualquer coisa que não amolecesse, mas que a vitalizasse de uma forma harmoniosa, a Margarida é uma máquina a cantar. É impressionante a maneira como são as dobras de voz dela, os trinados, os vibratos, aquilo assentava tudo certinho. É uma máquina, mas é uma máquina com alma, é muito perfeita. A canção não é propriamente um dueto, ela está a fazer uma pontuação numa canção que tem o seu lado de caos, embora seja muito ordeiro no sentido em que está sempre a ser cantada sobre os mesmos acordes e sobre um riff que é constante ao longo da música, trazer um lado de curiosidade e de limpeza à canção que acontecesse ali. A Carol eu conheço há algum tempo, quando ela veio para Portugal, radicou-se na Marinha Grande e de repente, tornou-se próxima da malta de alguma cena de Leiria, e eu conhecia por causa disso. Ela veio viver para Lisboa e fomos amadurecendo esta ideia de um dia colaborarmos e quando eu estava a escrever esta canção “Daqui Para Trás”, que é uma canção que fala de coisas que às vezes parecem antagónicas, mas conseguem harmonizar aquilo que é alguma placidez que a nostalgia confere, algum embelezamento morno que a nostalgia confere, mas depois também intenso e vulcânico e afogueado, e as vozes brasileiras às vezes prestam-se a isso. A música popular brasileira presta-se a esses dois polos da coisa ser extremamente doce, mas depois ter ali uma sensualidade que puxa pelo fogo da canção e a Carol era perfeita para isso. Ela é superintensa na interpretação que faz, até das canções mais calmas. E eu pensei, que era altura de a chamar, de chamar este trunfo que eu aqui tenho porque somos amigos. Perguntaram-me numa entrevista que devia ser muito bom para ela ter o Samuel Úria a apoiá-la. Mas não, foi um apoio que ela me deu nesta canção. Eu tenho muito gosto de aproveitá-la e sendo ela desconhecida estar um bocadinho na linha da frente das pessoas não a divulga.
Altamont: Não és o Júlio Isidro da Carol?
Samuel Úria: Não, ela está aí com um projeto.
Altamont: Essa canção faz-me lembra a banda sonora do Roque Santeiro.
Samuel Úria: É. É bastante canção de Roque Santeiro, sim.
Altamont: O Miguel Esteves Cardoso disse numa crónica que escritores e artistas gostam sempre mais da sua última obra. Este é o disco que mais gostas?
Samuel Úria: Isso não é inteiramente verdade. Porque de alguma maneira, quando chega a altura de falarmos sobre o disco, não me acontece tantas vezes. Mas agora como a produção do disco acabou há mesmo muito pouco tempo, tenho estado muito preso ainda nas misturas a ouvir as coisas com muito detalhe, os vídeos e as videoletras têm passado tudo muito por mim e de alguma forma, acabo por ficar mais saturado.
Mas, por outro lado, a experiência de gravação foi tão curta e o trabalho, lá está outra vez, também favorecendo o contributo do Miguel e dos músicos que estiveram comigo, foi tão fácil, foi tão simples, que a materialização de canções que foram duras de escrever e foram demoradas terem tido uma vida tão simplificada quando chegou a altura do laboratório de estúdio, deixa-me muito contente com este disco e estou muito pacificado com ele. Ouço estas nove canções e estou muito feliz com a parte menos conturbada que foi a parte de materializar as canções e dessa forma também acho que estou muito ansioso de levá-las para palco para a nova materialização, para a nova vida que elas vão ter quando chegarem aos ouvidos das pessoas. E nesse sentido, é possível que, pela primeira vez, eu diga que este disco, enquanto conjunto e para ser a tradução daquilo que eu quis dizer e que a Canção “2000 A.D.” desbloqueou, é talvez o disco que eu acho mais bem conseguido. Se fizeres a pergunta daqui a meio ano possivelmente não direi a mesma coisa.
Altamont: Já disseste que vais levar o disco para a estrada. Já sei que vais fazer os Coliseus?
Samuel Úria: Sim, vou atirar-me para os Coliseus.
Altamont: E então, nervoso?
Samuel Úria: Não de todo. É claro que é um risco, porque é uma coisa que me vai dar muito trabalho em termos promocionais. Vou ter de me mexer muito para conseguir pôr pessoas em salas grandes. Mas não estou nervoso, estou bastante motivado, ainda falta bastante tempo, vai ser só em Outubro.
Também sei que parte da promoção deste disco, que é uma promoção oficiosa, vai passar por estes concertos. Eu vou ter de dar bons concertos para fazer com que as pessoas queiram ir ver os próximos e isso não me deixa nervoso, deixa-me extremamente motivado.

Altamont: Mas antes dos Coliseus vais andar pelo país.
Samuel Úria: Espero bem que sim, eu já tenho algumas coisas marcadas, já agora a partir de janeiro já tenho datas marcadas. Estou muito esperançoso, com o que aí vem quer sejam festivais, concertos em teatros. Vamos lá ver, estou extremamente motivado.
Enquanto os Coliseu não chegam, podem encontrar o Samuel Úria no MicroSons 2025 em Palmela, dia 24 de Janeiro e no Teatro Maria Matos, no ciclo Conta-me Uma Canção, em dupla com Manel Cruz, no dia 12 de Fevereiro.
Fotografias cedidas por Joana Linda