Reportagens

Samuel Úria || Musicbox

Os santos da casa fizeram fusão no Musicbox e achincalharam tudo o que era alma penada.

Samuel Úria, esse ciclópico da música portuguesa, entendam-se conotações positivas e agigantadas, decidiu espezinhar-nos de roque enrole durante 3 dias no musicbox, e eu, na impossibilidade de ser calcada a triplicar, fui presentear-me com o primeiro dos dias.

Não espero pouco vindo dele porque desde cedo o elevei a um ser criativamente áureo, mas também não sabia bem para o que ia, só queria ter uma certeza, que a “Barbarella e barba rala” era tocada na noite em que eu ia. Para tal recorri aquela maravilhosa ferramenta de proximidade-afastamento, que é como quem diz Instagram e fiz o meu momento discos pedidos. Ora o Samuel aka Sami aka Senhor Úria viu, e acudiu as minhas preces com a prontidão de quem entendia a dor pela qual eu iria passar caso essas preces não fossem acudidas.

Podia começar por dizer-vos que o concerto foi detentor de uma pujança dificilmente igualável naquele cenário e espaço, capaz de demover os mais carrancudos, a potenciar o bem-dito abanão de anca, catalisador certeiro para uma ascensão a outro espaço de bem-estar musical.

O estratagema foi montado colocando na base “A agenda”, assim a pés juntos, e um “Miúdo” d’A Sessão Morgado-Úria-Guillul, bem enroladas com o bom do rock.
Arrancámos para uma “Aeromoço” que nos recorda que o mundo é só mesmo o embaixador do chão. Depois fomos àquele som meio tarantinico-deserto-coiso, de palha a rebolar de um lado para o outro, “Essa voz” d’O Grande Medo do Pequeno Mundo. Colocou-se ali um bocadinho de Carga de Ombro em campo e o bater de pratos mais épico ostentou uma “Repressão” que se gritou à toa.
Acho que tive a sorte de ir ao concerto mais mítico em termos de viagem temporal, e puxou-se pelas Velhas Glórias com a “Grandiloquência do Roque Enrole” a vestir-nos de punk das unhas dos pés à mohawk da cabeça.
Embalou-se a cria Marcha Atroz com uma ode em jeito crooner ao entoarem “Mãos”.
Caso já nos estivéssemos a levantar do chão veio uma enxurrada enérgica de “Forças de Bloqueio” e uma “Ninivita”, que não se confunda com aquele grupo espectacular que eram os Ninivitas, esses que cantavam sobre esposas que confessavam ter laqueado as trompas quando chegaram ao segundo no verão de 2003.

Respiram-se ali uns míseros segundos para se perder todo o ar com a afamada meritória “Lenço enxuto”, que vai ter sempre uma carga demasiado pesada de ironia por puxar tudo o que de sensível existe em mim até ao tutano. É bonito quando ouvimos pessoas a cantarem de peito dissecado que “nem precipitado consigo chover”.
Outrossim uma “Fusão” para recordar que a música do mundo pode ter vestígios de soja e céu, e toma, outra entrada de carrinho para “Não arrastes o meu caixão” que nos faz dar uns 10 passos à caranguejo no jogo da mamã dá licença e, bolas, se não é das letras mais fertilmente engenhosas que eu já ouvi.
Por essa altura do concerto fui ao “Tapete” e já se tornava complicado acreditar que qualquer um dos outros dois dias que concerto possam sobrepujar o que aconteceu naquele palco.
Ouviu-se um “Rock Desastre”, uma versão aportuguesada da “Molly’s lips”, uma “Malha do Afonso” e antevia-se um encore com “Teimoso”, é, o clássico que nos faz expelir as injúrias de quem está fora do seu tempo.

Eu, falando por todos os presentes na sala, que nem casório, já me contentava, mas Samuel Úria, mostrando-se dono de uma, várias, bastantes palavras, volta para cantar “Barbarella e barba rala”, *interjeições várias que indiquem satisfação e sorrisos sonoros*, que nos atira com aquele lambadão de irrealidade do incrível, de que no amor é que está o ganho porque está.
Uma “É Preciso que eu diminua” que tem efeito hipnótico ao nível da anca e quadris no geral e em particular, diria até narcótico, mas não querendo exagerar ficamo-nos pelos estados de consciência naturais. E finalizou a bem-dita sova ao público com “Tigres dentes de sabre”, essa velhinha que dá vontade de pegar no lasso e começar para ali a apanhar tigres ou coisas preciosas ou só a armarmo-nos.

Como é que se diz que algo foi memorável para todo o sempre infinito e mais além sem parecer uma pessoa incapacitada vocabularicamente (neologismos também valem, na dúvida são sempre neologismos)? É que foi, essa quantidade toda de memorável que estão para aí a pensar. Ah, graças a quem esteve, e azar de quem não esteve. Este fica.

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Fotografia: Inês Silva

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