Rui Reininho e Samuel Úria encontraram-se no Maria Matos e nada ficou no lugar. Dois reis da palavra, um palco e zero guião. A conversa virou concerto e o concerto virou caos feliz.
Começo por dizer que, por muito que eu conte detalhes sobre a noite de Carnaval no Maria Matos (e não sou grande fã de excessos de pormenor em reportagens), este é daqueles eventos difíceis de recontar. É o típico “tinhas de lá estar”.
A última noite do ciclo de 2026 de “Conta-me uma Canção” juntou dois reis da palavra, um deles até tem Rei no nome e, por isso, antes de o ser já o era. Rui Reininho e Samuel Úria uniram as suas vozes à guitarra de Rui Maia e há quem diga que fizeram caos; eu digo que fizeram história.
Logo nos primeiros minutos percebemos que nada iria seguir o guião, com Úria a trocar a primeira canção do alinhamento. Uma noite que se queria de conversa acabou por ter mais canções do que paleio: foram 14, e ainda houve espaço para outra fora de plano.
Samuel ainda tentou trazer alguma seriedade à conversa, mas foi sucessivamente atropelado pela personalidade despreocupada de Reininho, num contraste que o levou, mais do que uma vez, a um quase rubor embaraçado. Trocaram-se os galhardetes da praxe, mas as conversas resvalaram quase sempre para o nonsense (uma espécie de Monty Python em versão Maria Matos). Falou-se de tudo: encontros no Estádio do Jamor, Morrissey, Inês Maria Meneses, os bongós emprestados por Benjamim, Guns n Roses, e até política, entre muitos outros desvios improváveis.
Musicalmente, a noite não foi apenas rica, foi um verdadeiro tesouro. Do lado de Reininho, ficámos pasmados logo no início com “Homem Temporariamente Sós” e “Piloto Automático”, com o público a cantar orgulhosamente o inevitável “vodka, vodka”. Mas o alinhamento não viveu apenas de GNR, ouviram-se também canções de Companhia das Índias e de 20.000 Éguas Submarinas.
Do outro lado do ringue, Samuel Úria impressionou com as suas versões. “Borbulhas de Amor”, a versão em português de “Burbujas de Amor”, de Juan Luis Guerra, e um “Belle Vue” quase lamentoso, original dos GNR, mostraram a sua capacidade de habitar canções alheias como se fossem suas. Para o final ficou a habitual rubrica “O Dueto”, onde os dois artistas interpretaram “Inferno”, de outro rei, Roberto Carlos.
Entre risos e canções marcantes, provou-se que dois opostos podem partilhar o mesmo palco em total sintonia. Os aplausos foram mais do que muitos e o público saiu com a sensação clara de ter assistido a algo fora de série, um momento raro e feliz da música portuguesa.
Fotografias Gonçalo Nogueira












